
É a segunda vez que encontramos um postal neste suporte. Sendo Portugal responsável por 50% da produção mundial de cortiça, talvez não seja de estranhar que por cá se tenham experimentado modelos de postais neste material.


A fórmula é arriscada mas quase poderíamos usá-la: o postal está morto, viva o postal! Diferentes autores (Ripert & Frere, 1983; Malaurie, 2003; Hossard, 2005) defendem que o postal atravessa hoje a sua segunda idade de ouro. No entanto, esta ideia de uma renovação do postal refere-se sobretudo à edição de postais, ao coleccionismo, ao interesse das avant-gardes por este meio de comunicação, assim como à sua utilização enquanto instrumento publicitário ao serviço das indústrias culturais, sob a forma do ‘freecard’. Quanto à sua função de objecto de correspondência e de meio de comunicação interpessoal, esta encontra-se actualmente largamente ‘empobrecida’ a favor da contemporânea panóplia de tecnologias comunicantes que vão do e-mail, às sms’s, aos chats...
O mosaico de postais aqui reproduzido mostra algumas das apropriações e recriações que o postal tem vindo a suscitar à medida que a sua dimensão de objecto de correspondência enfraquece. Numa obra de mailart como I got up de On Kawara, obra em que o artista envia uma série de postais aos amigos registando a hora a que acordou todos os dias, há uma reutilização do postal (uma fotografia com um verso datado, assinado, carimbado, endereçado) no sentido de dar forma a questões que ocupam Kawara, como a relação da temporalidade com a imagem. O verso com marcas de cola, adquirido numa feira da ladra em Paris em Maio de 2009, é um exemplo de postal que foi utilizado como simples reprodução e objecto decorativo em detrimento do seu uso na correspondência. O postal editado pela Descartes Media publicitando a ópera La ville morte de Erich Wolfgang Korngold, é um entre os muitos freecards que já não reservam espaço para correspondência: a margem esquerda do postal, normalmente destinada à mensagem do remetente, é invadida pela sinopse da ópera e a sua ficha técnica. Finalmente, o postal que reproduz no seu recto o verso em branco de um postal é uma criação da Publicards: nele podemos notar até que ponto é que o verso do postal, cada vez menos utilizado, se tornou ele próprio, para os seus designers e para os seus consumidores, uma imagem, essa espécie de “forma pura” que George Simmel (La tragédie de la Culture) atribuía aos objectos que já tinham perdido a sua utilidade real mas que nos continuavam a suscitar prazer.
The formula is risky, but we could almost use it: The postcard is dead, long live the postcard! Different authors ((Ripert & Frere, 1983; Malaurie, 2003; Hossard, 2005) claim that nowadays we’ve been assisting to a postcard second golden age. Although, this idea of a postcard renewal concerns mainly postcards edition, collection, avantgardes new interest for this means of communication, as well as its use as an advertising tool serving cultural industries in the form of ‘freecards’. Regarding postcards as correspondence objects and interpersonal means of communication, these functions are nowadays impoverished in favour of the contemporaneous panoply of communicative technologies (e-mail, sms’s, chats…).
The postcards mosaic here reproduced shows some of the appropriations and recreations that postcards have been inspiring as far as their correspondence dimension has been weakening. In a a mailart work such as I got up by On Kawara, in which the Japonese artist has sent a series of postcards to his friends stating the time he had woke up each day, there is a re-use of the postcard (a photography and a dated, sent, addressed and stamped verso …) in order to give shape to On kawara’s main questions, such as the relationship between temporality and image. The postcard’s back with glue marks, bought in a flee market in Paris in May 2009, is an example of a postcard which was used as a mere reproduction and as a decorative artefact rather than as a correspondence object. The postcard published by Descartes Media promoting the opera La ville morte by Erich Wolfgang Korngold, whose ‘verso’ is here presented, is one among many freecards that don’t keep a space to the correspondence any more: the left side normally dedicated to the sender’s message is invaded by the opera general information and synopsis. Finally, the postcard that reproduces in its front the empty back of a postcard is a creation of Publicards: in this postcard we can realise how postcards ‘verso’, less and less used, has become, for their designers and consumers, an image; we can notice how postcards ‘verso’ has become this kind of “pure form” that Georges Simmel (La tragédie de la culture) recognized in the objects that had already lost their real utility but that kept pleasing us.



Investigadores da Universidade de Lancaster e da Universidade Metropolitana de Manchester (Reino Unido) têm-se dedicado recentemente a comparar os postais ilustrados da primeira década do séc. XX aos micro-posts do Twitter nos dias de hoje, e têm descoberto numerosas afinidades entre eles. Segundo o estudo apresentado por Julia Gillen e Nigel Hall, o postal "edwardiano" é uma "tecnologia de comunicações multimodais fascinante", tendo permitido pela primeira vez praticar a escrita quotidiana e informal a um muito baixo custo. Os termos da comparação twitter-postal são diversos... Se o twitter permite escrever 140 caracteres, o postal pelo seu pequeno tamanho também permitia apenas uma breve fórmula - o postal foi, aliás por causa disso mesmo, segundo os autores, um dos precursores das abreviaturas e dos 'atentados' à gramática' que hoje se perpetua não só no twitter mas também em chats e sms's. Por outro lado, a popularidade de ambos os fenómenos e a frequência da sua utilização é também semelhante: segundo recentes dados, a rede social e website criados em 2006 dispõe hoje de cerca de 55 milhões de visitas por mês; quanto ao postal, os investigadores britânicos estimam que em Inglaterra entre 1901 e 1910 fossem enviados 6 biliões de postais e que fossem realizadas 6 entregas de correio por dia, nas maiores cidades. Num exercício de demonstração, Julia Gillen e Nigel Hall têm transferido alguns postais da Belle Époque e as suas mensagens para o twitter, como se pode ver nesta página twitpic.
Researchers at Lancaster and Manchester Metropolitan universities have been recently comparing picture postcards from the first decade of the XXth century to twitter micro-posts of today and have been discovering how similar they are. According to the research project presented by Julia Gillen and Nigel Hall, the Edwardian postcard is “a fascinating multimodal communications technology”, since it allowed for the first time rapid vernacular writing at very low cost. The terms of comparison twitter-postcard are numerous… Twitter allows posts of up to 140 characters; similarly, postcards because of their small size allowed a rapid formula – the postcard was thus one of the pioneers of abbreviated and short forms as well as abuses of grammar that today is being perpetuated not only in twitter but also in chats and sms’s. On the other hand, the popularity of both phenomena and the frequency of their use is also comparable: according to recent estimations, the social network and website created in 2006 has today 55 million monthly visits; concerning postcards, the Britannic researchers calculated that around 6 billion postcards were posted in Britain between 1901 and 1910 and that up to six deliveries a day were being made in major cities. As a demonstration exercise, Julia Gillen and Nigel Hall are twitting some of the Belle Époque postcards, as we can see in this twitpic page.
«Sendo hoje, talvez, um meio de comunicação menos popular do que o foi até há algumas décadas, o postal ilustrado continua ainda a circular como suporte de mensagens visuais. Assim tem sido, pelo menos, na área da Publicidade, onde o postal aparece sob diversas formas, da mais tradicional à electrónica, nomeadamente ligado ao meio cultural. É justamente a partir dessa observação que propomos, neste trabalho, uma reflexão sobre a utilização deste meio, já centenário, no quadro das organizações contemporâneas, cuja gestão e funcionamento depende, cada vez mais e de forma irreversível, das Tecnologias da Informação e da Comunicação. Pretende-se, por outras palavras, detectar na singeleza tecnológica do postal potencial para responder aos desafios de comunicação que se impõem num contexto de saturação e grande competitividade semiológica. Sem qualquer pretensão de estabelecer o postal como um medium premium face à sofisticação tecnológica de outros formatos, pretendemos explorar as valências de utilização integrada de um meio que, pelas significações histórico-culturais que lhe são intrínsecas, gera empatia no consumidor, viabilizando um contacto efectivo com a mensagem e com a marca. Embora tomando como cenário de base os desafios que a generalidade das organizações enfrenta, a nossa reflexão centrar-se-á particularmente nas organizações culturais, tomando em linha de conta as especificidades de um mercado em que se transaccionam bens intangíveis e onde, por consequência, a comunicação joga um papel decisivo enquanto processo agregador de valor.»
It will be presented on Thursday, October 08, at 11:30, at the University of Minho the first Master Dissertation allusive to the strategic use of the Picture Postcard. It is the first one produced under the project "Illustrated Postcards: Towards a socio-semiotics of image and imaginarium" and perhaps the first ever done in Portugal on this medium. Marlene Pereira, the author, sums up this work developed in the scope of the Master in Communication Sciences of University of Minho:
Marlene Pereira (2009), Cultura à vista: o postal ilustrado como estratégia de promoção das Artes e da Cultura«Even if it is today a medium less popular than it was until a few decades ago, the Picture Postcard is still active as a medium for visual messages. The postcard is used, at least, in the Advertising field, where it appears in various forms, from the most traditional ones to the electronic ones, particularly related to Arts and Culture.In this work, we propose a reflection on the use of this centenary medium in the contemporary organizations, whose management is based, more than ever and in an irreversible way, on Information and Communication Technologies. Our goal is to find in the technological simplicity of the postcard some strength to face the challenges of communication that nowadays organizations deal with, since they work in a context of high competitiveness. Without claiming the postcard to be a medium premium, neither denying the technological sophistication of the most recent advertising media, we want to explore the role of this old medium in the communication mix, on the assumption that the postcard, by its historical and cultural meanings, creates empathy in the consumer, enabling an effective contact with the message and with the brand.Taking as baseline scenario the challenges that the most of contemporary organizations face, our discussion will focus particularly on
cultural organizations, as an intangible assets market - a market where communication plays a decisive role as a process of adding value.»
Sala de Actos - Instituto de Ciências Sociais - Universidade do Minho - 08 de Outubro de 2009, 11h30. As Provas de apresentação deste trabalho são públicas.