
Saturday, May 29, 2010
x Carimbo(s) + 1 Postal em Branco = 1 postal + x e-card(s) / x RubberStamp(s) + 1 Blank Postcard = 1 postcard + x e-card(s)

Sunday, May 23, 2010
O riso e o risível: forma e subjectividade
No mundo dos bilhetes postais, deparamo-nos, amiúde, com exemplares presumivelmente cómicos. Apresentam, quase todos, cenas e personagens que se ajustam ao protótipo do risível avançado por Henri Bergson (1983: 9 e 11): “desajeitados” e “grandes desviados”. Confesso que raramente me fazem rir. Já não digo às gargalhadas, contentar-me-ia com algumas cócegas no espírito.

Este postal ilustrado é capa de um livro clássico (Kyrou, 1966). E, para além de fazer cócegas no espírito, fornece um bom pretexto para dois apontamentos atravessados:
1 – O risível pode provir mais da forma do que do conteúdo. Parece-me ser o caso do “humor mais criativo”;
2 – O risível pode ocorrer, não porque observamos, desprendidamente, um “desajeitado” (Charlot) ou um “grande desviado” (Don Quixote), mas, outrossim, porque aquilo que nos é dado observar nos deixa , a nós, sem jeito, nos desvia para outros jogos (a que a razão é, porventura, alérgica).
Referências:
BERGSON, Henri (1983), O Riso. Ensaio sobre a significação do cómico, Rio de Janeiro, Zahar Eds.
KYROU, Ado (1966), L’Age d’Or de la Carte Postale, Paris, Balland.
Monday, May 3, 2010
Propaganda e humor mortífero

Esta referência a M. Bakhtin vem a propósito de alguns postais ilustrados de propaganda circulados durante a primeira República. A História do humor não é porventura tão líquida quanto o sugere a proposta de M. Bakhtin, não deixa, porém, de ser uma tentação procurar aplicá-la a três postais que mostram a República, zelosa e higienista, a escorraçar os indesejáveis à chicotada e à vassourada. Universalidade ou parcialidade? Ambivalência ou univocidade? Comunhão ou alienação? Homeopatia ou exorcismo da diferença? Regeneração ou exorcismo? Esperança ou melancolia? Abertura ou abismo? Dobra festiva ou sombria? Riso pantagruélico ou satírico? Folia ou angústia? Humor carnavalesco ou “humor mortífero”, para retomar a expressão de Jean Paul Richter?...


Estes postais contêm caricaturas. As caricaturas, tal como as caretas e as paródias, derivam, segundo M. Bakhtin, da máscara, que “exprime a alegria das alternâncias e das reencarnações, a alegre relatividade, a alegre negação da identidade e do sentido único, a negação da coincidência estúpida consigo mesmo; a máscara é a expressão das transferências, das metamorfoses, da violação das fronteiras naturais, da ridicularização, dos sobrenomes; a máscara encarna o princípio do jogo da vida” (49). Até que ponto a máscara, tal como a entende M. Bakhtin, se ajusta a estas caricaturas?
Referências:
Bakhtine, Mikhaïl (1970), L’Oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance, Paris, Gallimard.
Richter, Jean Paul (1804), Cours préparatoire d’esthétique, Lausanne, l ‘Âge d’ Homme, 1979.