Thursday, April 10, 2008

'Real photo postcards', fragmentos amadores


esq.:manuscrito no verso I'll meet you face to face tomorrow; dir.:manuscrito no verso I told you I would meet you face to face and here I am. in Harvey Tulcensky & Laetitia Wolffin (2005) Real Photo Postcards: Unbelievable Images from the Collection of Harvey Tulcensky. New York: Princeton Architectural Press

Eram os cartões amadores, os postais da vida intíma das primeiras décadas do séc.XX, e desconhecemos o termo que os designa em língua portuguesa... Os photo real postcards eram criados a partir de câmaras fotográficas próprias para postais e destinadas aos utilizadores comuns (como a No. 3A Folding Pocket Kodak, a primeira e a mais popular de todas). Nestas máquinas de uso fácil, a dimensão do negativo era maior do que o normal, sendo possível imprimir o postal directamente a partir dele. O papel tinha um verso já pré-impresso com os elementos habituais: o espaço para o selo, para o endereço do destinatário, para a correspondência...
Como se pode ler na introdução de um catálogo de real photo postcards, criado pelo artista norte-americano Harvey Tulcensky e pela designer Laetitia Wolffin, estes postais de fabrico pessoal são «lugares comuns da cultura popular» e não escapavam muitos deles à habitual estereotipia, mas constituíram um momento particular e significativo da história da fotografia e da história do postal ilustrado. Afastados do espaço publicitário e turístico, e não tendo em vista na sua maioria a comercialização e a reprodução massivas, os autores dos real photo postcards (que normalmente eram também os remetentes) abriram o horizonte dos motivos possíveis e criaram ainda uma relação diferente (eventualmente mais próxima) entre o verso e a face do postal.
Circunscritos a um tempo em que as imagens ainda nos aturdiam apenas em voz baixa, estes postais da vida íntima assumem um especial interesse quando vistos à luz da iconofilia fragmentária e generalizada dos nossos dias.


Alguns real photo postcards da colecção de Harvey Tulcensky aqui

Wednesday, March 12, 2008

A imprensa e o postal



(Em cima: postal ilustrado, presumivelmente datado de 1903 - ano no cabeçalho do jornal representado na face; Em baixo: micro-secção «Postal Ilustrado» na revista semanal Visão, a 23 de Agosto de 2007 - a introdução à secção é a seguinte: «Em tempo de mails e sms, a Visão recupera, este Verão, a tradição dos postais ilustrados. Pedimos a várias personalidades para escolherem um postal e o respectivo destinatário.»;)

Sejam os jornais no postal, seja o postal nos jornais, certo é que, com a distância de um século, as trocas entre estes díspares meios de comunicação ainda perduram.
O postal, meio de comunicação marginal e com uma forte componente privada (mesmo que a sua natureza seja a de uma carta aberta), e a imprensa, poderoso mass media (de caracter público), cruzam-se em ambos os casos apresentados. No princípio do século XX, as imagens de um meio de comunicação público davam 'rosto' a mensagens privadas (note-se que na época, não só o Diário de Notícias mas a imprensa nacional e a regional foram massivamente publicitados através de edições de postais semelhantes a esta). Em pleno séc. XXI, na revista Visão, são as imagens de um meio de comunicação privado que dão 'rosto' a uma mensagem pública.

Wednesday, February 20, 2008

O postal e o imaginário surrealista


(La Carte surréaliste, Première série, Vingt et une cartes, 1937, esq. nº1. Ampoule Contenant 50 c.c. d'air de Paris/Ampoule containing 50 c.c. air of Paris, Marcel Duchamp, dir. nº2. Poéme-Objet/Poem-object, André Breton in ALMEIDA, Bernardo Pinto de, 2007. Força de imagem, Porto: Campo das Letras, p.14/25)

Se o postal ilustrado tem uma velha e perene ligação com as artes plásticas, não será surpreendente que um movimento artístico como o surrealismo não se tenha esquecido do postal, meio de comunicação em idade de ouro na época e com preponderante importância no imaginário colectivo. La carte surréaliste é um conjunto de 21 postais editados em 1937 (um ano antes da Exposição Internacional de Surrealismo em Paris) por Georges Hugnet, membro do grupo surrealista, historiador do movimento dada, escritor, artista gráfico e cineasta francês. Nesta colecção de postais, cujo primeiro número é precisamente o postal com a fotografia do célebre ready made de Duchamp (acima apresentado), encontram-se reproduzidos trabalhos de artistas como André Breton, Max Ernst, Man Ray, Magritte, Dali, Miro, Dora Maar, e, claro, o próprio Georges Hugnet... Com papel rosa e uma capa azul onde figura o título da série, a rara colecção de postais integra actualmente o espólio do Museu Colecção Berardo, em Lisboa.

Thursday, February 14, 2008

Um freecard hoje: consumo, comunicação, estética...




Ainda se pode ver e retirar de alguns escaparates publicitários do país, que ocupam frequentemente a entrada de cafés, bares, restaurantes e outros estabelecimentos comerciais semelhantes. Simultaneamente publicitário e comemorativo, este criativo postal gratuito editado pela Publicards é alusivo ao dia de hoje, 14 de Fevereiro de 2008, Dia de S. Valentim, ao mesmo tempo que publicita os Cappuccinos da Nescafé.
Fenómeno publicitário global, os freecards juntam-se aos outdoors, flyers, muppies e a toda a parafernália publicitária na ruidosa ocupação do nosso quotidiano. Com uma face e um verso que procuram o aspecto cool próprio à contemporaneidade, estes postais gratuitos, aparentemente marginais, constituem um importante meio de comunicação, cruzando eficazmente o consumo com a comunicação, o sentido estético e as relações interpessoais.

Wednesday, February 6, 2008

Xadrez postal

Postal para xadrez por correspondência in Wikipedia

Visto como precursor das formas de comunicar ditas 'pós-modernas', o postal ilustrado, servindo de suporte ao xadrez por correspondência, foi das primeiras formas a vulgarizar a ideia de partilha de um jogo entre pessoas conhecidas ou desconhecidas, geograficamente distantes entre si.

Largamente trocado entre xadrezistas de todo o mundo ao longo do séc.XX e ainda hoje regulado por comunidades como a International Correspondence Chess Federation, o postal para xadrez foi nos anos 80 ultrapassado pelo email e a partir dos anos 90 tornou-se definitivamente obsoleto face aos servidores online (como o actual Free Internet Chess Service), que permitem aos jogadores uma partida em tempo real.

Monday, February 4, 2008

Postal-puzzle: uma paisagem em dois postais

Legenda: "Capela da S.ª da Saúde e rios Câvado e Gerês"; Editor: Ediçaõ da Junta de Turismo; in RIBEIRO & FERNANDES (1983). A descrição bibliográfica do postal ilustrado. (...) Braga: Centro de Ciências e Engenharia de Sistemas da Universidade do Minho

O manuseamento do postal, os jogos de puzzle que os mesmos permitem, as múltiplas conjugações que a imaginação do coleccionador encontra, viabilizam caminhos e soluções expositivas que começam por ser um gozo íntimo para se tornar a solução.
ABEL, Marília & CONSIGLIERI, Carlos (2003). O Rossio em Postal Antigo. Lisboa: Livros Horizonte (citado por Ana Bonifácio, a 26 de Janeiro de 2008)