Thursday, July 31, 2008

Etiqueta postal



Os postais ilustrados, como tudo que é apreciável, também têm os seus requintes. Assim o entende o site Protocolo y Etiqueta (http://www.protocolo.org) pródigo em regras e recomendações. Em tempo de férias, os postais ilustrados pedem, como sempre, algum sentido das conveniências e muitas "doses de imaginação e engenho".



Quando o postal ilustrado é um meio de defesa do património

* Postal ilustrado editado pela Junta de Freguesia de S. Vítor - Braga, em colaboração com o Núcleo Filatélico e Coleccionismo de Braga - edição numerada limitada a 100 exemplares - Mostra filatélica do "Dia do Selo" , Braga 2006.12.01

A Obra Hidráulica Setecentista das Setes Fontes

Trata-se de um complexo de captação e abastecimento de água à cidade, que foi edificado no Século XVIII e que dá pelo nome abundante e generoso de Sete Fontes. Conjuga o virtuosismo da arquitectura barroca com a riqueza da água potável debitada continuamente por 14 minas e com o testemunho do engenho da hidráulica setecentista. Infelizmente, como em tantos outros casos conhecidos, paira neste momento a grotesca ameaça de uma urbanização desordenada e especulativa no local. Pelo menos assim ainda o determina o Plano Director Municipal de Braga, que nas suas anteriores revisões ignorou o facto do seu valor.
Ainda que formalmente protegido no âmbito da lei do Património Cultural Português desde 1995, o sistema foi homologado pelo Ministro da Cultura, Pedro Roseta, como monumento nacional em 29 de Maio de 2003. As Sete Fontes têm sido amplamente noticiadas na comunicação social, não só a local, escrita e radiofónica, como em determinados momentos gozaram mesmo da cobertura mediática dos periódicos nacionais, suscitando inclusive a realização de um debate televisivo. É frequentemente visitada por grupos, sobretudo, de escolas. Porém, incompreensivelmente o complexo continua praticamente ao abandono e em degradação acentuada.

Vale a pena, pois, descrever, sucintamente os elementos do complexo patrimonial das Sete Fontes, para perceber melhor a dimensão do valor em causa, bem como as suas contingências. Trata-se de uma obra hidráulica construída cerca da segunda metade do Século XVIII (1744-52), ainda que evidencie testemunhos posteriores (ex. a mina dos órfãos – 1804) e, naturalmente, também de épocas muito anteriores. Neste caso é perfeitamente admissível considerar a captação e a condução de águas remontáveis ao período de Bracara Augusta, nem que seja pela proximidade da passagem da Geira romana (via XVIII), considerado o abundante manancial aí reunido e por estarem situadas a uma cota superior aos lugares mais elevados da cidade, factor insubestimável se se considerar a necessidade de alimentar as numerosas fontes e balneários da cidade de então. Estruturado ao longo de cerca de 3,5 km de extensão na singela bacia hidrográfica que o acolhe, antes de se projectar através da conduta principal até à cidade, a obra é basicamente constituída por: um sistema canalizado em blocos paralelepípedos de granito manilhados; galerias subterrâneas de variadas concepções, escavadas em trincheiras com lajes de cobertura sustentando a terra arável, ou abertas directamente no saibro; e um grupo de “capelinhas” – mães ou castelos de água –, magníficas edificações em pedra aparelhada, de planta circular e tecto abobadado, onde converge a água para as pias de centrifugação trazida nas condutas. Realce ainda para o pormenor artístico da heráldica barroca ricamente trabalhada em pedra, do arcebispo D. José de Bragança (1741-56) que patrocinou a expressão visível da obra, e ainda, no plano técnico, para os respiros (poços de ventilação/descompressão), que evidenciam o apuramento tecnológico da condução das águas. Chega nos dias de maior caudal a debitar cerca de 500 mil litros diários de água.

A ASPA (Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural), a Junta de Freguesia de S. Vítor e a Associação juvenil "Jovemcoop", debatem-se empenhadamente na salvaguarda deste monumento nacional, que tem previsto para o local a construção de urbanizações de elevada sensidade, um troço de "auto-estrada" com 50 mts de secção e o futuro hospital central de Braga. Em conjunto tentam promover a criação de um eco-parque no local.
O presente postal ilustrado é, pois, mais um recurso de intervenção que foi adoptado por este movimento cívico.

Tuesday, July 22, 2008

Postais portugueses 'made in Germany'

Ao manusear a colecção de postais ilustrados que a equipa de investigação recolheu na Biblioteca Nacional, não pude deixar de notar que vários exemplares ostentavam uma referência germânica, facilmente identificável como sendo a referência ao editor, como se vê no exemplar acima: Verlag v. H, Vaz, Frankfurt, a M.. Em outros casos, lê-se explicitamente: Made in Germany.

Um artigo muito curioso disponível online devolveu-me a explicação: entre 1880 e 1914, a Alemanha funcionou como o grande centro mundial de produção de postais ilustrados. Essa posição hegemónica, disputada pela Áustria e pelos Estados Unidos, era assegurada pela qualidade das ilustrações e também pela competitividade dos preços.

Durante cerca de três décadas, centenas de milhões de postais foram colocados em circulação por todo o mundo, saídos maioritariamente das tipografias germânicas. Mais do que um meio de comunicação privilegiado, porque rápido, eficiente e económico, o postal conquistou lugar como objecto de colecção: representando lugares e costumes distantes ou eventos e tradições locais, tornou-se moda expor essas colecções nas salas de estar para contemplação das visitas. O seu valor simbólico era tal que se diz que apenas perdiam importância para a Bíblia.

A ‘postcard mania’ começou a declinar por volta de 1913, assim que o cenário político começou a dar os primeiros sinais de instabilidade…e com isso, também a indústria dos postais perdeu fôlego.

Tuesday, July 15, 2008

243 postais: clichés entre a literatura e a matemática

Daniel Blaufuks, A Perfect Day, location one, Nova Iorque, 2003

On est à la pension Mimosa. Farniente, dodo et petits repas. J'ai pris un coup de soleil. Mille pensées affectueuses. Este é um exemplo das muitas mensagens de postais, criadas por Georges Perec (1936-1982), romancista e ensaísta francês que marcou a literatura do séc.XX . O membro do OULIPO (Ouvroir de Littérature Potentielle) escreveu Deux cent quarante-trois cartes postales en couleur véritables (in PEREC, G., 1989, L’infra-ordinaire, Paris: Libraririe du XXIe Siècle, Seuil), uma espécie de correspondência ficional através de postais, dedicada a Italo Calvino, o autor de As Cidades Invísiveis.

Cliché e escrito de modo breve e estandardizado, o postal pode bem ser considerado um próximo antecessor das SMS e de toda a abreviada correspondência electrónica dos nossos acelerados dias. Se escrever postais de modo ‘económico’ e estereotipado é desde o séc.XIX um banal exercício, o autor de La Disparition e de La vie: mode d'emploi fez o exercício inédito de converter a síntese e o cliché num sistema regulado pela ciência exacta dos números. O conjunto de 243 postais sem imagens foi produzido seguindo um procedimento matemático específico – o número total dos postais, a composição das mensagens e a sua ordem estão sujeitos a um sistema lógico engendrado por Perec. O processo assenta na combinação de listas alfabéticas de cidades, regiões e hotéis, de secções próprias a toda a mensagem de bilhete-postal (localização, considerações, satisfação, menções, e saudações) e de fórmulas de expressão... (Mais informações sobre o processo de elaboração de Deux cent quarante-trois cartes postales en couleur véritables aqui )

E porque os postais são um cliché com face e verso, não surpreende que ao sentimento de déjà lu das mensagens corresponda também um sentimento de déjà vu das imagens. Depois de Georges Perec ter 'produzido' em larga escala os estereotipados versos de 243 postais, quis-se actualmente imaginar as repetitivas faces. Em 1999, a Gallimard editou Machines à écrire, um CDrom de Antoine Denize onde, além de ser apresentada a lógica que rege os 243 cartões-postais de Perec, se disponibiliza um céu, um cenário e um primeiro plano a partir dos quais o leitor pode criar 243 imagens diferentes, combinando-as com o respectivo texto. Em 2006, um blogger fez corresponder, ao longo de 243 dias, 243 imagens encontradas na Internet a cada uma das curtas mensagens do escritor (ver weblogue aqui ). Por sua vez, o artista plástico português Daniel Blaufuks, numa das variações do projecto Perfect Day, exposta em Nova Iorque em 2003, sobrepôs os textos de Perec a imagens aleatórias de postais.

Saturday, July 12, 2008

Parlez-moi d’amour avec des fautes d’orthographe


«É urgente inventar a alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras». Eugénio de Andrade em Até Amanhã (1951-1956).

Não vamos encontrar versos assim inspirados nos postais de amor de que se ocupa Henri Joannis-Deberne. A poesia é neles estereotipada e a escrita é mesmo deficiente. Todavia, diz Joannis-Deberne, «os erros ortográficos estão para o postal de amor como a merguez está para o cuscuz, uma vez que lhe dá picante, sabor e autenticidade» (p.23). Pois não serei eu a contrariá-lo.

Parlez-moi d’amour avec des fautes d’orthographe foi editado pela Payot, já este ano de 2008. Remete para um universo de mais de duzentos postais, comprados em feiras da ladra, com datas que vão de 1900 a 1930. O autor projectou este livro como um devaneio, que acompanha o jogo amoroso em França, através das imagens e das palavras dos postais. Pelo domínio da prática da escrita entre os correspondentes, Joannis-Deberne procura estabelecer a categoria sociocultural a que pertencem, os seus sistemas de valores, a audácia e a timidez de que dão mostras, e ainda o peso da moral católica.

Este ensaio sobre os postais assinala, por outro lado, um trajecto através de várias correntes estéticas populares, que por exemplo declinavam a distinção e o chique colocando em cena (fotográfica) cavalheiros elegantes, de colarinhos engomados, e meninas de olhar tímido e fartas cabeleiras de caracóis.

Sunday, June 29, 2008

Da modernidade à pós-modernidade


É liminar a conclusão de Marcelo Rebelo de Sousa no semanário Sol, de 28 de Junho, sobre o bilhete postal. Passou a «pré-histórico», diz. A acreditarmos na sua própria constatação, a juventude desconhece-o.


Todavia, no Mona Lisait, a livraria da rua St Martin, a dois passos do Centre Beaubourg, em Paris, vendem-se postais para resistir à Internet. Aliás, no verso do postal em destaque, acentua-se essa mesma ideia: «Resistir, é por vezes escrever».

Resistir a quê, podemos perguntar? Sem dúvida à mediação dita «imediata», como já em 1980, se referia Jacques Derrida à comunicação por telefone, mas que é sem dúvida característica da comunicação electrónica.
Não é certo, no entanto, que os postais ilustrados indiquem o fim de uma época. Meio de comunicação contemporâneo da máquina fotográfica, o postal indica um modo de atravessar a modernidade, e um modo também de compreender as formas de comunicação, que podemos caracterizar como pós-modernas.
Esteve ligado às formas mais íntimas da comunicação interpessoal, tendo por objectivo partilhar com familiares e amigos informações que não eram de natureza pública. Acompanhou a transformação da sociedade rural em sociedade urbana, como instrumento de promoção turística e de publicidade. Desempenhou um papel importante na construção do imaginário popular, através de imagens etnográficas, geográficas, históricas e patrimoniais, e também de imagens humorísticas, satíricas e publicitárias.
Mas, da mesma forma, ao metamorfosear-se em e-card, home-page, post de blogue, SMS, o postal ilustrado valoriza a interactividade, o apego e a ligação a um outro, o carácter fragmentário e múltiplo da existência, a instantaneidade, a emoção, a «efervescência do instante», a hibridação do homem e da máquina, enfim, o «ritmo da vida», para convocar uma expressão do sociólogo Michel Maffesoli.

Saturday, June 28, 2008

Identidades, valores e modos de vida em postais

Há muito que um significativo conjunto de postais ilustrados portugueses despertou a equipa deste projecto para uma certa coincidência entre as ilustrações destes suportes e alguns princípios do programa ideológico do Estado Novo. Foi justamente esta impressão que partilhámos ontem, no congresso da Associação Portuguesa de Sociologia, em Lisboa, numa mesa especialmente dedicada à reflexão sobre os 'Discursos e Identidades Colectivas'.

Sintetizamos alguns aspectos desta coincidência:

- o apego à ruralidade;
- a celebração das tradições;
- a valorização do folclore e a salvaguarda dos valores identitários genuínos;
- a exaltação da cultura popular;
- o elogio do nacional;
- a restauração da 'alma da Pátria'...