Tuesday, January 6, 2009

Musée de la Carte Postale: lugar de consagração do 'rei da permanência no reino do efémero'

Há quem pense os museus como depósitos de objectos mortos, arrancados ao passado e, por conseguinte, desactualizados e sem qualquer utilidade que não o prazer da rememoração. O mesmo para os postais ilustrados: há quem os pense como um objecto anacrónico, cuja validade enquanto meio de comunicação (porque era essa a sua vocação original) expirou com o advento de novas, sucessivas e cada vez mais sofisticadas tecnologias da comunicação.

Em Antibes, França, existe um espaço que deita por terra, de uma só assentada, os dois mitos. A funcionar desde o início do milénio, Le Musée de la Carte Postale é, por certo, um local de visita obrigatória para os amantes da deltiologia. Através da exposição permanente e de quatro exposições temáticas anuais, este museu mostra as muitas faces deste objecto que, embora centenário, conserva actualidade. Mas deixemos as apresentações por sua conta. Assim se lê no separador Historique du Musée, no website:

«Avec son charme suranné, avec ses prises de position inconditionnelles, avec sa volonté de convaincre, d’informer, de rassurer, la carte postale c’est, depuis plus de cent ans, la “Souveraine de la permanence au royaume de l’éphémère”. C’est cet univers que vous propose d’ explorer le Musée de la Carte Postale, basé sur le prêt d’une collection privée et animé par une équipe de bénévoles passionnés.
Vous y découvrirez :
En première partie : L’histoire de la carte postale de 1869 à nos jours racontée par elle-même. En France, dans le monde entier, sa fabrication, son commerce et son influence dans la vie quotidienne.
En deuxième partie : Un siècle de vie humaine. Les 95 départements Français métropolitains, la série Paris Vécu complète, le travail du bois, la musique, les moyens de locomotion, la publicité, les illustrateurs de charme et les illustrateurs Internationaux, les précurseurs du Surréalisme, les cartes dites "en forme", etc.
Une très belle présentation de cartes à tirettes et à système mises en action à chaque visite guidée. Des cartes transparentes, à illusion d’optique, en bois, en métal, en celluloïd, en cuir, sur soie, en porcelaine.
En troisième partie : Une exposition temporaire constituée d’au moins une centaine de cartes renouvelée tous les trimestres».

Até Março, estará em exibição Cartes de Rêves (uma 'colecção de sonho', poder-se-ia dizer). Deste acervo fazem parte postais do início do século XX cujas ilustrações são motivadas pela abordagem pioneira de Sigmund Freud aos mecanismos do inconsciente na obra “A interpretação de sonhos”.



E já agora que estamos de bagagens, agendemos paragem também no Musée de la Poste, em Paris. Pena que já não vamos a tempo da exposição Les Dessous de la Carte Postale. Patente entre Outubro de 2006 e Março de 2007, a exposição traçava o percurso evolutivo do postal, em termos de forma, conteúdo e utilização, desde o seu aparecimento no séxulo XIX até aos nossos dias. Felizmente, os museus, assim como os postais, souberam acompanhar o ritmo do tempo e, por isso, vamos sempre a tempo de uma visita virtual.

Wednesday, December 24, 2008

Os postais também cantam

Em tempos de recortes, colagens e reciclagem criativa, não surpreende que os vídeos musicais se inspirem nos postais ilustrados. É o caso deste videoclip russo (Oleg Chubykin, The Tourist, 2007) feito com postais ilustrados antigos da cidade de Vladivostok (clicar na imagem).

A Merry Christmas and a Happy New Year to you

"O Primeiro Postal De Natal" ?
"O primeiro postal de Natal surgiu na Inglaterra, pelas mãos do pintor John Callcott Horsley (1817-1903), em Dezembro de 1843, a pedido de Sir Henry Cole (1808-1882), director do South Kensington Museum."
E é assim, a propósito da quadra que nos cai este exemplar respigado dos "motores de busca". Será deveras o primeiro?! Ou é mais uma expressão daquela velha querela pela primazia das coisas, animada pelas burguesias nacionais das potências europeias da era industrial?!
Não interessa!
O que importa é que os Votos de um Feliz Natal e de um Bom Ano Novo, um dos desejos mais generosos que ecoa hoje por todo o planeta, serviu a razão de ser ao postal ilustrado logo nas suas origens, quiçá mesmo ao motivo do primeiro exemplar.
Um Feliz Natal e um Bom Ano Novo de 2009 a todos vós bloguesferianos que se interessam por postais ilustrados...

Thursday, December 11, 2008

Um postal turístico que não fala a língua universal dos postais turísticos

Fig. 1. Postal turístico de Zurique na origem da polémica noticiada pela imprensa internacional no início do mês de Dezembro



Fig. 2. Postal turístico tradicional da cidade de Zurique publicado numa página do Flickr (aqui)

"La carte postale touristique est une image policée qui ne semble tolérer aucun débordement. Ceci nous fait dire que le type d'images rencontré sur un tel support est toujours 'neutre' ou 'positif': la photographie de carte postale est une image 'lisse'.Nicolas Hossard, 2005: 40 (Recto Verso Les faces cachées de la carte postale. Paris: Arcadia Editions)
De facto, as imagens dos postais turísticos são habitualmente uma espécie de personagens planas na história da imagem e da publicidade... Conformes às expectativas e aos estereótipos, elas costumam corresponder à linguagem universal das belas paisagens e dos cenários aprazíveis, impecavelmente fotografados.  No entanto, há excepções e a provocação e a polémica tão frequentemente lançadas pela linguagem publicitária começeçaram ocasionalmente a contaminar os cartões-souvenir.  Um postal turístico de Zurique recentemente posto à venda nos quiosques da cidade (fig.1),  e cujo autor é o designer Tristan Hauser, é um desses casos. Representando a cidade através do nome da mesma escrito com cocaína, o designer, que já admitiu a falta de um 'aparelho' crítico na imagem de que é autor, chocou os cidadãos de Zurique, que enviaram inúmeros protestos ao jornal diário Tages-Anzeiger , responsável pelo concurso de postais, do qual Hauser foi um dos vencedores. A imprensa internacional acompanhou o debate em torno deste postal que segundo Frank Bumann, director do Turismo de Zurique e membro do júri do concurso, é apenas "uma alusão divertida" que faz referência a um aspecto da cidade que "é impossível ignorar". 

Tuesday, December 2, 2008

DVD-postal: além da face e do verso

Stand de postais multimedia (postal com mini-dvd, neste caso) numa loja de souvenirs em Veneza, em Novembro de 2008. O preço destes postais era de 7 euros.
 

Combinando uma imagem massiva com uma mensagem manuscrita e singular, o postal foi um dos primeiros meios de comunicação interpessoais a fazer uso da hibridez de recursos. O postal multimédia, o DVD-postcard ou a D-carte na versão francesa, acrescentam à imagem e ao texto do postal tradicional, as imagens em movimento, a partir de um disco (CD-rom, DVD, ou Mini-DVD) incrustado no interior do cartão postal. Estes postais digitais podem encontrar-se cada vez mais frequentemente nas lojas de turismo e não será nada surpreendente que daqui a uns tempos se torne usual recebê-los em casa, seja através de amigos e familiares que gostam de expor mais longamente os seus destinos de férias, seja através da publicidade que nos presenteia quotidianamente com as suas inovações e a quem já não escapam as potencialidades dos postais multimédia. 

À semelhança da incerteza que ainda hoje envolve a questão de quem foi o verdadeiro inventor do postal tradicional,  também não se consegue saber ao certo quem foi o pioneiro do conceito do DVD-postal.  As sucessivas pesquisas apontam para o croata Damir Maruscak, psicólogo e director da Janus Multimedia, que patenteou a criação do primeiro postal multimedia em 2001 (a World Intellectual Property Organization confirma-o). No entanto, em França a ideia da combinação do postal com um suporte multimédia é constantemente atribuída pela imprensa nacional a Claude Maidenberg, um jovem empresário e webdesigner - datam de 2005 as primeiras notícias on-line acerca da chamada D-carte


Mais informação sobre Damir Maruscak e o postal multimédia aqui

Mais informação sobre Claude Maidenberg e a d-carte aqui

Monday, December 1, 2008

Os postais como suporte publicitário

Free Cards: quando o consumidor leva a marca no bolso

Talvez fosse de esperar que, com o advento da era digital, os postais perdessem território face à panóplia de tecnologias que hoje oferecem aos anunciantes a possibilidade de encetar técnicas de marketing muito direccionadas e, ipso facto, potencialmente mais eficazes: banners, resultados patrocinados nos motores de busca, janelas pop-up, social media advertising, etc... Paradoxalmente (ou nem tanto), os postais como suporte publicitário ressurgem em grande força. Os free cards são a esse respeito paradigmáticos.

Várias razões poderíamos aduzir para justificar o sucesso de um meio aparentemente (só aparentemente) obsoleto num domínio tão implacável quanto o da competitividade empresarial. Intuitivamente, podemos apontar a gratuitidade, a criatividade e o formato apelativo como justificativas. Sem dúvida. Mas os free cards gozam de uma outra vantagem sobre todos recursos acima elencados: a certeza de que o público se identifica com a marca, com o produto ou com a mensagem. É que neste caso, a mensagem não é imposta. Distribuídos gratuitamente em locais estratégicos, os free card estão à disposição para serem examinados e, após exame, abandonados ou recolhidos. Assim, quando alguém guarda um free card, o contacto dessa pessoa com o anúncio publicitário resulta de um acto espontâneo, voluntário. Esse será o pormenor que faz a diferença.

A avaliar pelos resultados de um estudo apresentado pela Postalfree, a maior empresa portuguesa de distribuição de free cards, essa diferença traduz-se numa taxa de recordação da marca ou produto de cerca de 69%. Ainda segundo o mesmo estudo, da totalidade de pessoas que contactam com um free card, 55% guardam, 51% enviam, 46% coleccionam.

São números que seduzem aqueles que têm a responsabilidade de fazer chegar uma mensagem. E não falamos apenas de empresas, mas também, e de forma cada vez mais sintomática, de organizações sem fins lucrativos. Olhando portas adentro, temos na Saúde, na Cultura e na Educação exemplos disso.

No campo da Saúde, o postal já deu corpo a várias iniciativas, como as campanhas de prevenção do HIV, subscritas pelo Ministério da Saúde, ou a campanha de vacinação contra o Cancro do Colo do Útero, promovida pela Liga Portuguesa Contra o Cancro.

De forma semelhante, vários agentes culturais nacionais têm apostado nos free cards como veículo privilegiado de divulgação da sua programação. A título ilustrativo, apontemos o Museu Colecção Berardo, o Centro Cultural de Belém ou, mais recentemente, o Centro Cultural Vila Flor que encontrou neste formato uma solução muito criativa para comunicar a 17ª edição do Guimarães Jazz: para cada um dos concertos do festival foi produzido um postal; os vários postais foram anexados, dando origem a uma harmónica de postais. Desta forma, conseguiu-se, com um mesmo objecto, cumprir três funções: divulgação do evento, arquivo documental e, em certa medida, afiliação – a tal identificação do público com o referente, de que falávamos acima.
Por último, também as Universidades têm encontrado nos postais um suporte adequado à divulgação dos seus cursos e dos seus eventos. Deixamos, para concluir, um exemplar da casa.

Wednesday, November 19, 2008

Postcard, Cartes Postales, Postales: os postais e o design grafico no séc.XXI

Projectos artísticos e performativos com postais, postais publicitários e promocionais, postais high tech e interactivos, postais musicais... Não, não são os nostálgicos postais a preto e branco do século XIX e dos princípios do século XX, e nem sequer os kitsch cartões postais que perduraram ate aos anos 80, e nem os populares e estereotipados postais turísticos que ainda encontramos actualmente. Não, não, não, è uma outra coisa, são os postais de hoje. São os postais muito de hoje, se nos é permitida a expressão. Enfim, a frase que apresenta o catálogo Postcard, livro concebido pela francesa Agathe Jacquillat e pelo austríaco Tomi Vollauschek, fundadores da agência de comunicação visual Fl@33, sedeada em Londres, é talvez a melhor para resumir o seu conteúdo: A celebration of recent postcard design, this unique book showcases over 800 miniature works of art, specially created for a postcard-sized canvas: a must-have for avid collectors as well as anyone with a passion for graphic design.. Edições semelhantes, sobre flyers, revistas ou pins já eram frequentes nas estantes das livrarias dedicadas ao design, mas os postais, inexplicavelmente, não tinham sido até agora reunidos à panóplia bibliográfica sobre os instrumentos fetiche do design.
Este livro sem precedentes, que juntamente com o catalogo oferece 20 postais concebidos para o efeito por ilustradores, designers e artistas internacionais, surgiu em Setembro nas livrarias europeias: foi editado originalmente em língua inglesa (com a chancela da Laurence King Publishing) e posteriormente adaptado para o francês, o alemão e o espanhol. Com mais de 100 contribuições de artistas e criativos, Postcard é um singular trabalho de pesquisa que reúne diversas incursões em formato de postal, provenientes ora do mundo da arte contemporânea, ora do mundo da publicidade, do design. No site dos autores, eles próprios profissionais do design publicitário, estão disponíveis alguns extractos do livro, as imagens dos postais anexados ao catalogo, bem como outras informações relativas a esta pioneira inclusão dos postais no panorama do design gráfico contemporâneo.