Friday, February 6, 2009

Quando o postal é a moldura: RCA Secret, Linden Postcard Show e PACE

Postal exibido e vendido no RCA Secret de 2008 criado pela artista plástica portuguesa Paula Rego   

 Hoodhead No.5 de Scott Miles, postal congratulado com o terceiro prémio do do Linden Postcard Show de 2008

see{k} de Tara Nicole Tonsor, um dos postais seleccionados e exibidos no Postcard Art Competition/Exhibition (PACE) de 2005


Nascido na 'era da reprodutibilidade técnica', o postal foi um dos primeiros suportes a reproduzir obras de arte e a popularizar o acesso a estas. Por outro lado, desde Marcel Duchamp com a série de postais “Rendez vous dimanche 6 février 1916 à 1h ¾ de 1'm après-midi” endereçados aos seus mecenas Arensbergs, passando pela eclosão da prática da mailart nos anos 60 com Ray Johnson nos EUA até aos dias de hoje, o postal passou a ser usado frequentemente como o suporte, o material e o próprio princípio orientador de singulares obras de arte. 

O RCA Secret, no Royal College of Art de Londres, de que já falamos aqui, é uma exibição de postais que recebe, expõe e vende postais criados por artistas como Paula Rego, Yoko Ono, Quentin Blake ou Tracey Emin. O Linden Postcard Show realiza-se anualmente no Linden Center for Contemporary Arts, em St Kilda na Australia – trata-se de uma competição aberta a artistas australianos que concorrem com trabalhos da fotografia, do design e das artes plásticas no formato do postal: os postais seleccionados este ano estarão renuidos, expostos e disponíveis para venda a partir de amanhã, naquela que será a 18ª edição deste evento. Curiosamente, quer o RCA Secret quer o Linden Postcard Show, ambos singularmente concorridos, representam para as instiuições que os promovem a fonte de uma boa parte dos seus fundos anuais. Finalmente, o PACE  é organizado pelo museu que detém uma das maiores coleccções púbicas de postais  do mundo: são os Curt Teich Postcard Archives do Lake County Discovery Museum, no estado de Illinois (EUA). Esta competição de postais norte-americana é bi-anual e este ano a sua 8ª edição aceita as propostas de artistas de todo o mundo até Julho (a exibição terá lugar em Outubro).

Porque é popular, porque se destina ao envio, porque tem baixo custo, porque tem um formato pequeno, porque pode ser acolhido em grande quantidade e em grande diversidade por uma mesma exposição – são várias as razões que fazem hoje perdurar o postal como um suporte artístico apetecível seja para a prática da arte a um nível alternativo, isolado e mais underground, seja para ser integrado  nas estratégias de instituições e museus de dimensão internacional.

Wednesday, February 4, 2009

Do e-mail, e-card, sms, mms ao postal

Figura 1. Postal adquirido em Paris (França), em Janeiro de 2009 - na face, as várias fórmulas significam “À plus!”, isto é, “Até já!”

Figura 2. Postal adquirido em Paris (França) em Janeiro de 2009 - na face, a fórmula inscrita pode ser assim traduzida: "Na época da Internet, o postal faz Resistência"; no verso, lê-se uma pequena frase no canto superior esquerdo "Resister c'est parfois écrire", isto é, "Resitir é por vezes escrever". Este postal já foi reproduzido e comentado aqui no nosso blogue.

 

Meio de comunicação interpessoal, o postal foi em certo sentido um percursor das muitas ‘tecnologias comunicantes’ que hoje temos ao nosso dispor.  Por outro lado, estas tecnologias são vistas frequentemente como uma ameaça à continuidade do postal. Mas, certo é que o postal continua a ser vendido e que já não ignora nem os telemóveis nem a Internet nas suas edições. 

O postal da figura 1 é assim uma das versões de uma série de postais que imita o ecrã de um telemóvel bem como as ininteligíveis abreviaturas made in sms. O postal da figura 2, apresentando na face uma contraposição entre o postal e a Internet, refere-se no verso ao acto de escrever próprio de uma tradição epistolar que não conta com os ecrãs dos nossos computadores. O postal, que curiosamente pelo seu tamanho pequeno foi um dos primeiros meios de comunicação a precipitar abreviaturas e códigos de simplificação, é ainda hoje um importante sobrevivente da mensagem manuscrita bem como desse trajecto geográfico ‘real’ que é o envio por correio. 

 

Monday, February 2, 2009

Postais: arte que corre o mundo (II)

" (…) Com a arte da gravação nasce o mundo fantástico da ilustração, uma linguagem que se adaptou perfeitamente à época uma vez que o índice de analfabetismo era altíssimo. Foi a evolução da ilustração e da arte da gravação que fez surgir o bilhete postal, proporcionando um novo tipo de comunicação criativa, assumindo desde logo uma ruptura com todas as tradições artísticas, permitindo que a arte passasse a ser contemplada fora dos seus circuitos normais. É óbvio que os artistas não poderiam ter ignorado o pequeno cartão que permitia uma livre circulação da sua arte, da mesma forma que o postal não poderia ter ignorado a beleza e o encanto que o artista lhe poderia proporcionar – desta forma a arte e o postal vão-se influenciar mutuamente.
(...)
É certo, e todos sabiam, que o postal reproduzia uma imagem, não sendo portanto o seu original, acabando por perder parte do seu interesse e da sua magia. Porém, foi precisamente o postal ilustrado que acabou por levar a beleza da arte a quem não tinha acesso a ela, surgindo desta forma uma sensibilidade que outrora era praticamente inexistente, dando igualmente aos artistas a oportunidade de continuar convictos que a magia da sua arte iria perpetuar. As imagens viajantes do bilhete-postal ilustrado são o corolário de uma série de factores artísticos, factores que terão certamente contribuído para o aumento de uma consciência estética, que outrora era praticamente inexistente (...). Da mesma forma, a arte terá sem dúvida influenciado o rumo do bilhete-postal, ao ponto de ele próprio ser encarado como um objecto de arte por direito próprio. "

Oliveira Matos, P. (2004), 'O Bilhete Postal e a Arte', in
A Arte do OFício nº6

Thursday, January 22, 2009

Postais: arte que corre o mundo

Ainda no roteiro das exposições a que o postal ilustrado deu o mote, cruzamos uma, em particular, que pede mesmo visita - pelo interesse da temática, pela conveniência da localização e... porque está quase quase a terminar: Post Me! Arte pelo Correio, em exibição na Biblioteca de Serralves, encerra já no Domingo. O título é auto-explicativo: relevar o papel do correio na “difusão de obras de arte” e na “criação uma rede que permitiu a muitos artistas o contacto e a divulgação além-fronteiras”. E neste capítulo, facilmente se adivinha o postal como protagonista...

Sunday, January 18, 2009

Do postal que 'imagina' ao postal que 'postaliza'


Postal do Porto, reproduzido no blogue Postais de Antigamente
Postal do Porto, com origem numa troca da comunidade Postcrossing, publicado numa página pessoal do Flickr

Aujourd'hui, je suis triste parce que la carte postale comme le cinéma s'éloigne, je vais récemment à Lyon et à peine arrivé à Perrache je cherche une carte postale à envoyer. Mais sur toutes il y a d'énormes 'LYON' d'inscrit, des recadrages hidieux, des trucs de création qui sont le "chic et cheap" d'aujourd'hui, et je réalise que ma carte postale, celle que j'aime, la vue aérienne, la cathédrale ou la place de marché sans rien dessus, n'existe plus. Ce qui n'existe plus c'est le prélèvement imaginaire d'un bout de paysage qui devient une image, image qui se désquame, qui vient vers moi, tombe à mes pieds sur les présentoirs de papeterie et de bureau de tabac. Il ne faut pas qu'on ait écrit sur cette image, qu'on l'ait signée, paraphée, estampillée, il faut qu'elle soit une feuille morte des arbres du paysage anonyme. C'est pourtant ce qui se passe. De même qu'il y a un cinéma "filmé" sursigné, sursignifié, il y a une carte postale postalisée. Serge Daney, 1994, Persévérance  citado em BIRNBAUM, Antonia, 1997, Transmissions d'images; éloge de la carte postale, in École des Arts Décoratifs de Strasbourg, 1997, Tradition, transmission, enseignement. Une relecture de la modernité par Walter Benjamin. Strasbourg: École des Arts Décoratifs

Thursday, January 15, 2009

Walker Evans and the Picture Postcard em exibição no Metropolitan Museum of Art

"The very essence of American daily city and town life got itself recorded quite inadvertently on the penny picture postcards of the early 20th century.…Those honest direct little pictures have a quality today that is more than mere social history.…The picture postcard is folk document."

Foi nestes termos que o fotógrafo norte-americano Walker Evans se referiu ao valor histórico-documental dos postais ilustrados, cuja colecção pessoal estará em exibição no Metropolitan Museum of Art de 3 de Fevereiro a 25 de Maio, na Howard Gilman Gallery.

Segundo anuncia o museu em comunicado de imprensa, Walker Evans and the Picture Postcard é uma instalação dinâmica arquitectada a partir dos mais de nove mil exemplares que constituem o espólio do decano da fotografia documental norte-americana. A exposição foi desenhada de modo a espelhar o ecletismo e organização conceptual da colecção original, que abrange categorias tão diversas como "Arquitectura Americana", "Fábricas", "Automóveis", "Cenas de Rua", "Hóteis", "Faróis", "Loucura" ou "Curiosidades". Entre postais adquiridos, oferecidos, enviados e recebidos, encontram-se também postais que a sua própria objectiva ilustrou.

Embora o espólio de Walker Evans seja propriedade do Metropolitan Museum desde 1994, esta é a primeira exibição que este espaço acolhe centrada especificamente no arquivo do fotógrafo.

Tuesday, January 6, 2009

Musée de la Carte Postale: lugar de consagração do 'rei da permanência no reino do efémero'

Há quem pense os museus como depósitos de objectos mortos, arrancados ao passado e, por conseguinte, desactualizados e sem qualquer utilidade que não o prazer da rememoração. O mesmo para os postais ilustrados: há quem os pense como um objecto anacrónico, cuja validade enquanto meio de comunicação (porque era essa a sua vocação original) expirou com o advento de novas, sucessivas e cada vez mais sofisticadas tecnologias da comunicação.

Em Antibes, França, existe um espaço que deita por terra, de uma só assentada, os dois mitos. A funcionar desde o início do milénio, Le Musée de la Carte Postale é, por certo, um local de visita obrigatória para os amantes da deltiologia. Através da exposição permanente e de quatro exposições temáticas anuais, este museu mostra as muitas faces deste objecto que, embora centenário, conserva actualidade. Mas deixemos as apresentações por sua conta. Assim se lê no separador Historique du Musée, no website:

«Avec son charme suranné, avec ses prises de position inconditionnelles, avec sa volonté de convaincre, d’informer, de rassurer, la carte postale c’est, depuis plus de cent ans, la “Souveraine de la permanence au royaume de l’éphémère”. C’est cet univers que vous propose d’ explorer le Musée de la Carte Postale, basé sur le prêt d’une collection privée et animé par une équipe de bénévoles passionnés.
Vous y découvrirez :
En première partie : L’histoire de la carte postale de 1869 à nos jours racontée par elle-même. En France, dans le monde entier, sa fabrication, son commerce et son influence dans la vie quotidienne.
En deuxième partie : Un siècle de vie humaine. Les 95 départements Français métropolitains, la série Paris Vécu complète, le travail du bois, la musique, les moyens de locomotion, la publicité, les illustrateurs de charme et les illustrateurs Internationaux, les précurseurs du Surréalisme, les cartes dites "en forme", etc.
Une très belle présentation de cartes à tirettes et à système mises en action à chaque visite guidée. Des cartes transparentes, à illusion d’optique, en bois, en métal, en celluloïd, en cuir, sur soie, en porcelaine.
En troisième partie : Une exposition temporaire constituée d’au moins une centaine de cartes renouvelée tous les trimestres».

Até Março, estará em exibição Cartes de Rêves (uma 'colecção de sonho', poder-se-ia dizer). Deste acervo fazem parte postais do início do século XX cujas ilustrações são motivadas pela abordagem pioneira de Sigmund Freud aos mecanismos do inconsciente na obra “A interpretação de sonhos”.



E já agora que estamos de bagagens, agendemos paragem também no Musée de la Poste, em Paris. Pena que já não vamos a tempo da exposição Les Dessous de la Carte Postale. Patente entre Outubro de 2006 e Março de 2007, a exposição traçava o percurso evolutivo do postal, em termos de forma, conteúdo e utilização, desde o seu aparecimento no séxulo XIX até aos nossos dias. Felizmente, os museus, assim como os postais, souberam acompanhar o ritmo do tempo e, por isso, vamos sempre a tempo de uma visita virtual.