Sunday, January 31, 2010

Postais entre as soluções imaginárias da patafísica - Postcards among imaginary solutions of pataphysics

Ubu en Suisse, postcard among a group of 8 postcards conceived by Enrico Baj, published as an Internal Publication by the College of Pataphysics
Ubu en Suisse, postal de um grupo de 8 postais criados por Enrico Baj e editados como Publicação Interna pelo Colégio de Patafísica

Os postais foram, mal apareceram, apropriados e usados como material iconográfico por diversas avantgardes artísticas do séc. XX. Hoje continuam-no a ser, e uma recente manifestação disso é esta edição de uma série de postais com paisagens da Suiça atravessadas pelo personagem Ubu, espécie de homem sem qualidades celebrizado com a peça de Alfred Jarry, Rei Ubu. Esta série de postais, que data de Abril de 2004 (o que no calendário patafísico corresponde a 131 E.P.), é uma série de de imagens de postais turísticos clássicos da Suiça percorridas pela figura informe de Ubu: se os postais humorísticos podem ser vistos por George Orwell como a "visão Sancho Pança da vida" , não admira também que os postais turísticos (pela pobreza dos clichés, pelo ócio a que convidam, pela pouca seriedade que inspiram) tenham sido associados ao Ubu, herói patafísico que Jean Baudrillard definia com expressões como "o estado gasoso e caricatural", "o esplendor do vazio"…

As soon as they appeared, postcards have been appropriated and used as an iconographic material by diverse artistic avant-gardes of the XXth century. Today, they keep being used: an expression of that is this edition of postcards with Switzerland landscapes and the character Ubu, a sort of man without qualities that became famous with Alfred Jarry’s play, King Ubu. This postcard series, published in April 2004 (which is 131 E.P. in the pataphysical calendar), is a series of images of classic tourist postcards of Switzerland mixed with the formless figure of Ubu. If humorist postcards can be seen by George Orwell as the “Sancho Panza view of life”, there’s no surprise in the fact that tourist postcards (because of the poverty of clichés, because of the leisure they invite to and the seriousness they don’t inspire… ) have been associated to Ubu, a pataphysics hero defined by Jean Baudrillard with expressions such as the “caricatural and gaseous state”, “the splendor of the void”…

Wednesday, January 6, 2010

Pleased to meet you: para o turista levar - Pleased to meet you: for turists to take away

Pleased to meet you John Shankie Nantes, 1996
Obra de arte exposta no Museu de Serralves (Porto, Portugal) integrada na exposição Serralves 2009 A Colecção
Artwork exhibited in the Museu de Serralves (Oporto, Portugal) integrated in the exhibition Serralves 2009 The Collection

A exposição Serralves 2009 A Coleccção patente no Museu de Serralves, no Porto, até Março de 2010 apresenta-se como dedicando especial atenção às "formas de edição múltipla da obra de arte através do livro de artista, do som e da fotografia". Nestas diversas formas de edição, que passam pelo livro, pela revista e pelo cartaz, assim como pelo filme e o disco, inclui-se também, como é previsível, o postal. Pleased to meet you de Fernando José Pereira e John Shankie é uma obra composta pelo cartaz publicitando Portugal, e por um expositor de postais com 100 postais ilustrados que reproduzem o cartaz, lembrando imediatamente os mais recentes postais de Veneza de Aleksandra Mir na 53ª Bienal, aqui comentados. Dedicado à reprodução das obras de arte mas integrando-se ele mesmo nela, constituindo o seu próprio corpo, o postal tem na obra de Fernando José Pereira e John Shankie várias faces: ele é postal turístico apropiado com tom irónico, mostrando um Portugal de não lugares com Fords e Carrefours, ele é reprodução da obra de arte ao dispôr do visitante de Serralves e do espectador da obra Pleased to meet you, ele é parte da própria obra de arte dando-lhe uma interactividade e um dinamismo no qual os espectadores são também desconhecidos intervenientes, divulgadores, ou, eventualmente, subversores.

The exhibition Serralves 2009 The collection presented in the Museu de Serralves until March 2010 is announced as being specially attentive to "forms of the multiple edition of the artwork such as artists’ books, sound and photography". These different forms of edition include books, posters, magazines, films, discs and of course, postcards. Pleased to meet you by Fernando José Pereira and John Shankie is composed by the poster which advertises Portugal, and by the postcard display rack containing 100 picture postcards that reproduce the poster; this artwork reminds us of Venice postcards by Aleksandra Mir in the 53th Biennale, here commented. Postcards, which reproduce artworks but also take part of them, get different dimensions in the work of Fernando José Pereira and John Shankie: they're tourist postcards subverted in an ironic tone (Portugal as a country of no-places, with Fords and Carrefours); they're a reproduction of the artwork distributed to Serralves visitors and specially to the public of the artwork Pleased to meet you; they're an element of the artwork, providing interactivity and dynamism as well as giving the public the possibility of interfering, divulgating or even subverting the artwork.

Sunday, December 20, 2009

Dos postais de Natal às sms de Natal - From Christmas postcards to Christmas sms

Postais de Natal criados este ano por uma designer portuguesa*
Christmas Postcards created this year by a portuguese designer*


Depois de várias pesquisas nos motores de busca da Web, reforça-se de novo a ideia já aqui apresentada de que o cartão de Natal é ainda anterior ao primeiro postal, circulado na Áustria em 1869. Mas o postal, formato de correspondência enviado normalmente sem envelope, e que permitia enviar por um módico custo os votos próprios de uma quadra festiva a amigos e familiares distantes, associou-se desde logo à comemoração desta quadra e o cartão de Natal rapidamente tomou a forma de um postal. Hoje, o mais habitual é mesmo escolher uma sms mais ou menos estereotipada, formal ou humorística , e enviá-la em catadupa para toda a lista telefónica. Ou então, para quem prefere as ilustrações ao texto, há ainda a panóplia de e-cards animados , de mms natalícios, que declinam até à exaustão, como os postais o fizeram outrora, a iconografia e os símbolos da quadra festiva. De modo que o Natal não é hoje só uma época em que a iluminação pública das cidades, com todas as suas cores, formas e brilhos, está permentemente acesa, mas também uma altura em que os nossos écrãs (do telemóvel, do computador) dificilmente se apagam. Aos cartões e postais tradicionais oferecidos e enviados nesta época, resta-lhes a materialidade e a permanência como souvenir, que os faz mais próximos da prenda. E ainda, claro, o formato simples que os faz ser uma tela privilegiada para experimentar a criatividade de jovens designers e ilustradores... Um bom exemplo disto são os postais de Natal concebidos este ano por uma jovem designer gráfica portuguesa*, aqui reproduzidos.
After some researches in the web search engines, we reinforce the idea, which was already here presented, that the Christmas card appeared even before the first postcard, circulated in Ostrich in 1869. But the postcard, which is a correspondence format normally sent without envelope allowing to send good wishes during the festive season for a small price, has been soon associated with the celebration of the season and the Christmas card has soon become a postcard. Today, the more common is to choose a more or less stereotyped, formal or humoristic sms, and to send it massively to all the contacts list. Or, for those who prefers illustrations rather than texts, there’s also the panoply of animated e-cards, Christmas mms’s, which decline exhaustively, as postcards did it once, the festive season iconography and symbols. This way, Christmas today is not only a time in which the public lights of the city, with all their colors and brightness, are permanently turned-on but also a time in which our screens (cell phone, computer…) are rarely switched off. Concerning cards and traditional postcards offered and sent in this season, there’s always their materiality and their permanence as a souvenir that make them closer to gifts. And postcards are also, of course, because of their simple format, a privileged canvas for experimenting the creativity of young designers and illustrators. A good example of this is the Christmas cards conceived this year by a young Portuguese graphic designer*, here exposed.
*A identidade e os contactos da designer gráfica foram removidos deste post, a pedido da mesma. 
*The identity and contact information from the graphic designer were removed from this post, at her own request. 

Friday, December 4, 2009

A subversão dos postais - The subversion of postcards


Postcard reproducing the "fantaisie" postcards album by Paul Eluard (ca. 1930), published by Editions du Centre Pompidou for the current exhibition La Subversion des Images

A coleccção de postais de Paul Eluard, que é parte do espólio do Musée de La Poste, estará em exibição no Centre Pompidou, em Paris, até 11 de Janeiro de 2009, na exposição de fotografia surrealista La Subversion des Images. Os álbuns de postais de Paul Eluard que contam com cerca de 2400 postais, e que foram sendo compostos pelo poeta entre 1929 e 1930, são uma montagem de postais “fantaisie” onde abundam os ícones e símbolos populares que compunham esses “trésors de rien du tout” - é assim que Paul Eluard no nº 3-4 da revista Minotaure, em 1933, define os postais. A colecção, que está disposta em conjuntos de seis postais por página, associa postais a cores, a preto e branco, ilustrados e fotográficos, e é uma série de imagens de mulheres - estas são, pode-se dizer, os motivos-base ou o tom de fundo de todos os álbuns – mas também de flores, casais apaixonados, obras de arte, pássaros e outros animais, paisagens, monstros, carros... A organização não tem nenhum critério claro: parece antes obedecer a uma vontade de associação arbitrária de ideias, de relações “de parecença e diferença, de analogia e estranheza, de afinidades e tensões” (José Pierre, Paul Éluard: La carte postale comme matériau du poème visible). Nas palavras de M.B., num artigo publicado no nº14 do Bulletin du Cercle Français des collectionneurs de cartes postales em 1969, com a sua disposição destas miniaturas de imagem, o poeta surrealista transforma os estereotipados e tão vulgares postais numa "alucinação liliputiana do mundo". Da colecção, possível de visionar na exposição em formato digital, ressaltam sobretudo as cores, que variam entre o cinzento turvo das velhas fotografias a preto e branco e os tons excessivos e irreais de grande parte das imagens, algumas das quais eram pintadas à mão após a impressão. Os postais de Eluard, que dizem bastante sobre o poeta mas também sobre a criação visual nos postais da primeira metade do século XX, reconstituem a partir das imagens de "fantasia" um labiríntico mosaico de aparições, imagens, figuras irreais, como se os álbums fizessem das gastas e populares imagens as passagens de um sonho. Os postais, que segundo Salvador Dali eram para os surrealistas "uma base experimental para o estudo do pensamento inconsciente moderno e popular", são fragmentos visuais da nossa memória e foram por isso a vários títulos apropriados e subvertidos por um movimento artístico que contribuiu também ele de modo marcante, para desenhar o imaginário contemporâneo.

Paul Eluard's postcards collection, which is part of the Musée de La Poste permanent collection, is presented in the exhibition of surrealist photography La subversion des Images, in the Centre Pompidou, in Paris, until the 11th January 2009. The postcards albums of Paul Eluard that have 2400 postcards and that had been being composed by the poet between 1929 and 1930 are a montage of “fantaisie” postcards, where we see a lot of those popular icons and symbols that composed the “trésors de rien du tout” –this is the way in which Paul Eluard defines postcards in the no 3-4 of the Minotaure review in 1933. The collection, which is disposed in groups of 6 postcards per page, mixes colored postcards with black and white postcards, illustrated with photographic postcards; it is a series of images of women – women are, we could say, the basic motif and the background color of all the albums – but also of flowers, couples in love, artworks, birds and other animals, landscapes, monsters, cars… The organization doesn’t have a clear criterion: it seems to obey a desire for arbitrary association, for relations of “resemblance and dissemblance, of analogy and strangeness, of affinities and tensions” (José Pierre, Paul Éluard: La carte postale comme matériau du poème visible). In the words of M.B., in an article published in the no 14 of the Bulletin du Cercle Français des collectionneurs de cartes postales in 1969, with his disposition of this miniatures of image, the surrealist poet transforms the stereotyped and so vulgar postcards into a “Lilliputian hallucination of the world”. Regarding the collection, whose digital version can be consulted in the exhibition, the colors are particularly suggestive: they range from a muddy grey of the old black and white photos to the excessive and unreal tonalities of great part of the images – a part of them was hand colored after the printing. Eluard’s postcards, which ‘talk’ about the poet but also about the visual creation in the postcards of the first half of the XXth century, reconstitute a labyrinthine mosaic, of apparitions, images, unreal figures, as if the albums turned the popular and old images into the moments of a dream. The postcards, which constituted for surrealists according to Salvador Dali “an experimental basis for the study of the modern and popular unconscious thinking”, are visual fragments of our memory, and they were because of that appropriated and subverted in many ways by an artistic movement that has also contributed in a decisive way for the contemporaneous ‘imaginarium’.

Memória(s) do Mundo



Les activités en communication et information - UNESCO

Mémoire du monde


Le programme de l'UNESCO visant la conservation et la diffusion des collections d'archives et de bibliothèque partout dans le monde

Egypte – La description de l’Egypte au début du XXème siècle à travers une collection de cartes postales
Collection de cartes postales sur l'Egypte au travers divers thèmes tels les arts et métiers, les bâtiments, les lieux, les vues et les pharaons.

Ce projet repose sur une collection de cartes postales qui ont été acquises par le Département des Antiquités Egyptiennes du Louvre. Cette collection se compose de 1340 cartes datant du début du XXème siècle. Cette collection restitue d'une manière frappante la ressemblance de l'Egypte avec la description publiée auparavant, au début de 19ème siècle. C'est la raison pour laquelle le même titre a été utilisé, et qu'un chapitre a été consacré à la description comparative de l 'Egypte à travers une collection qui remonte à cent ans, et dont la description originale date d'il ya deux cents ans environ.

Sur cet ensemble de cartes postales la majorité porte le cachet postal. Leurs dates varient essentiellement entre les années 1900 et 1914. Certaines de ces cartes-postales comportent des motifs en gaufrages, ou sont colorées au pochoir. La majorité a été tirée avec le procédé de la phototypie. Quelques rares exemples sont des photographies.


http://portal.unesco.org/ci/fr/ev.php-URL_ID=25422&URL_DO=DO_TOPIC&URL_SECTION=201.html

Wednesday, December 2, 2009

"TUDO É DIFERENTE NO CAIRO QUENTE"






Os postais têm também este dom de reatar contactos, de servirem de pretexto para revisitar memórias que trazem penhorados os nossos afectos. Desta vez foi a longa amizade de uma prima que, por efeito da mediatização do projecto, vendo-nos a ele associado, foi procurar ao fundo da gaveta um daqueles molhos íntimos de correspondência, canonicamente cintados por uma fita de seda, dos quais flui ainda uma suave fragrância de velho perfume, e nos fez uma oferta.
Dos exemplares resistentes, que o passar do tempo patrimonializou, retiro um espécime sugestivo pela natureza "exótica, misteriosa, e emocionante", que a distância do tempo e do espaço, a curiosidade pela viagem, e até, talvez, a expectativa da aventura, atribuem ao “orientalismo” do motivo, um dos maiores temas nobilitadores da ilustração, em geral, e do postal ilustrado, em particular. O mesmo Oriente, diverso e distante, que nos desconstrói Edward Said (1978) e que nós, ocidentais, inventámos, degenerando-o até à perversidade de hoje o reduzirmos a um mundo "problemático e perigoso".
O motivo em causa é a mesquita azul e a animação da estreita rua que lhe dá acesso, no Cairo da primeira metade dos anos de 1930. Como não poderia deixar de ser, o postal ilustrado é de edição britânica e o sentido de quem enquadrou o plano da foto não é muito diferente da intenção de quem o expediu. De facto, este não se distingue assim tanto das memórias difusas de Ulisses na costa africana em busca do retorno a casa ou dos arcaicos relatos de Heródoto que estigmatizou essa expressão de alteridade civilizacional. A mesma ainda que, muito mais tarde, viria a identificar o imaginário de viajantes em "Tour", a filantropia de um Lord Byron, ou a sustentar ainda, sob a égide de Napoleão Bonaparte, a publicação da célebre "Description de l'Égypte, Recueil des observations et des recherches qui ont été faites en Égypte pendant l'expédition française de l'armée" (1809-1829). Produto do trabalho de mais de centena e meia de sábios que integraram as ditas campanhas militares francesas no Egipto entre 1798 e 1801, e que determinaram a imagem de marca do Egipto romântico que proliferou por todo o século XIX. O reconhecido “orientalismo” que perdurou e subsiste, permitindo-nos imaginar T. E. Lawrence (1888-1935) (o das arábias...)a passear por essa mesma rua que vem no postal, ou que nos traz à memória as estrofes daquele sucesso musical português do principio dos anos de 1980, exaltador desse velho mito ocidental… uma vez e sempre o tal exacto "postal" do nosso inconsciente colectivo.

"Isto é o Cairo
Distante, Cairo
Excitante, Cairo
Apaixonante

(…)

aaah, tudo é diferente
aaah, no Cairo quente"

Cairo, Táxi (LP, Polygram, 1982)

Tuesday, November 24, 2009

A subversão dos postais - The subversion of postcards

Postcard reproducing the "fantaisie" postcards album by Paul Eluard (ca. 1930), published by Editions du Centre Pompidou for the current exhibition La Subversion des Images

A coleccção de postais de Paul Eluard, que é parte do espólio do Musée de La Poste, estará em exibição no Centre Pompidou, em Paris, até 11 de Janeiro de 2009, na exposição de fotografia surrealista La Subversion des Images. Os álbums de postais de Paul Eluard que contam com cerca de 2400 postais, e que foram sendo compostos pelo poeta entre 1929 e 1930, são uma montagem de postais “fantaisie” onde abundam os ícones e símbolos populares que compunham esses “trésors de rien du tout” - é assim que Paul Eluard no nº 3-4 da revista Minotaure, em 1933, define os postais. A colecção, que está disposta em conjuntos de seis postais por página, associa postais a cores, a preto e branco, ilustrados e fotográficos, e é uma série de imagens de mulheres - estas são, pode-se dizer, os motivos-base ou o tom de fundo de todos os álbuns – mas também de flores, casais apaixonados, obras de arte, pássaros e outros animais, paisagens, monstros, carros... A organização não tem nenhum critério claro: parece antes obedecer a uma vontade de associação arbitrária de ideias, de relações “de parecença e diferença, de analogia e estranheza, de afinidades e tensões” (José Pierre, Paul Éluard: La carte postale comme matériau du poème visible). Nas palavras de M.B., num artigo publicado no nº14 do Bulletin du Cercle Français des collectionneurs de cartes postales em 1969, com a sua disposição destas miniaturas de imagem, o poeta surrealista transforma os estereotipados e tão vulgares postais numa "alucinação liliputiana do mundo". Da colecção, possível de visionar na exposição em formato digital, ressaltam sobretudo as cores, que variam entre o cinzento turvo das velhas fotografias a preto e branco e os tons excessivos e irreais de grande parte das imagens, algumas das quais eram pintadas à mão após a impressão. Os postais de Eluard, que dizem bastante sobre o poeta mas também sobre a criação visual nos postais da primeira metade do século XX, reconstituem a partir das imagens de "fantasia" um labiríntico mosaico de aparições, imagens, figuras irreais, como se os álbums fizessem das gastas e populares imagens as passagens de um sonho. Os postais, que segundo Salvador Dali eram para os surrealistas "uma base experimental para o estudo do pensamento inconsciente moderno e popular", são fragmentos visuais da nossa memória e foram por isso a vários títulos apropriados e subvertidos por um movimento artístico que contribuiu também ele de modo marcante, para desenhar o imaginário contemporâneo.

Paul Eluard's postcards collection, which is part of the Musée de La Poste permanent collection, is presented in the exhibition of surrealist photography La subversion des Images, in the Centre Pompidou, in Paris, until the 11th January 2009. The postcards albums of Paul Eluard that have 2400 postcards and that had been being composed by the poet between 1929 and 1930 are a montage of “fantaisie” postcards, where we see a lot of those popular icons and symbols that composed the “trésors de rien du tout” –this is the way in which Paul Eluard defines postcards in the no 3-4 of the Minotaure review in 1933. The collection, which is disposed in groups of 6 postcards per page, mixes colored postcards with black and white postcards, illustrated with photographic postcards; it is a series of images of women – women are, we could say, the basic motif and the background color of all the albums – but also of flowers, couples in love, artworks, birds and other animals, landscapes, monsters, cars… The organization doesn’t have a clear criterion: it seems to obey a desire for arbitrary association, for relations of “resemblance and dissemblance, of analogy and strangeness, of affinities and tensions” (José Pierre, Paul Éluard: La carte postale comme matériau du poème visible). In the words of M.B., in an article published in the no 14 of the Bulletin du Cercle Français des collectionneurs de cartes postales in 1969, with his disposition of this miniatures of image, the surrealist poet transforms the stereotyped and so vulgar postcards into a “Lilliputian hallucination of the world”. Regarding the collection, whose digital version can be consulted in the exhibition, the colors are particularly suggestive: they range from a muddy grey of the old black and white photos to the excessive and unreal tonalities of great part of the images – a part of them was hand colored after the printing. Eluard’s postcards, which ‘talk’ about the poet but also about the visual creation in the postcards of the first half of the XXth century, reconstitute a labyrinthine mosaic, of apparitions, images, unreal figures, as if the albums turned the popular and old images into the moments of a dream. The postcards, which constituted for surrealists according to Salvador Dali “an experimental basis for the study of the modern and popular unconscious thinking”, are visual fragments of our memory, and they were because of that appropriated and subverted in many ways by an artistic movement that has also contributed in a decisive way for the contemporaneous ‘imaginarium’.