Thursday, July 8, 2010

Bolsa de Investigação / Research grant

O projecto de investigação que edita este blogue abriu concurso para a contratação de um Bolseiro para o Outono de 2010. A Bolsa terá a duração de três meses e início previsto em 15 de Setembro próximo.

Os candidatos deverão ter formação em Ciências da Comunicação e demonstrar as seguintes competências:
- bons conhecimentos de informática, especificamente no que concerne a tratamento de imagem, paginação e gestão de bases de dados;
- domínio de metodologias de análise de imagem;
- domínio da língua inglesa;
- de preferência, experiência prévia de integração em projectos de investigação.

O período de candidatura termina a 14 de Julho de 2010. Para mais informações, ler por favor o anúncio publicado no Portal Eracareers.

The research project that edits this blog lauched a competition for a grant for the Autumn of 2010. The grant will be for 3 months and it will start at 15th September.
Candidates should have a degree in Communication Sciences and demonstrate the following competences:

- Good knowledge of computing, especially in what concerns editing image, editing layouts and managing data base.
- Some expertise in methodologies of visual analysis;
- To have command of the English language
- Preferably, previous experience in terms of research projects.

The deadline to apply is 14th July 2010. For further information, please read the published announcement in Eracareers Website.

Monday, June 7, 2010

Texturas / Textures


A história do postal como arte gráfica está marcada por uma grande versatilidade dos formatos convencionais a diversas texturas. Já aqui anotámos o toque de cortiça (aqui e aqui), de tecidos (aqui)e de materiais esponjosos (aqui) que pontual e originalmente serviram este suporte de comunicação. No avesso desta plasticidade, descobrimos também a prestabilidade do postal para a composição de trabalhos criativos. Trabalhado manualmente, este cesto resulta do recorte, montagem e costura de postais que, tendo eventualmente ilustrado palavras, aqui ilustram sobretudo a habilidade das mãos e dão textura aos objectos do quotidiano.

The picture postcard history as graphic art is marked by a great versatility of conventional formats to diverse textures. We have already noted the touch of cork (here and here), of cloth (here) and of spongy materials (here) that occasionally and originally served this mean of communication. In the reverse of such plasticity, we found out the postcard usefulness for the composition of creative works. Worked manually, this basket is a result of the snippet, montage and seam of postcards that, having eventually illustrated words, here illustrate mainly the ability of hands and give texture to objects of daily life.

«Viajar à boleia de postais»

Postcrossing é um projecto internacional de troca de postais a que este blogue já por três vezes fez referência (aqui, aqui e aqui). Este fim-de-semana o FUGAS, suplemento do PÚBLICO, concedeu-lhe cinco páginas. Num dossier em que se explica a origem portuguesa do projecto (criado por Paulo Magalhães), o FUGAS dá conta de testemunhos de pessoas para quem o postal ainda não foi totalmente suplantado pelo email.
Para além das interessantes histórias de quem diz ter corrido o mundo (ou parte dele) a encontrar postcrossers, esta reportagem conta também o lado didáctico que os postais podem ter. De acordo com o postcrosser Fernando Ferreira, citado pelo PÚBLICO, «há escolas nos Estados Unidos que usam o postcrossing para ensinar às crianças onde são os países, como são as culturas, que monumentos têm, que animais há lá».

Link para o projecto: http://www.postcrossing.com/

Saturday, May 29, 2010

x Carimbo(s) + 1 Postal em Branco = 1 postal + x e-card(s) / x RubberStamp(s) + 1 Blank Postcard = 1 postcard + x e-card(s)

Imagem Reproduzida numa página Flickr dedicada aos postais de Natal de 2008, no Museu Berardo

A ideia parece ter partido do fotógrafo Fernando Gonçalves, e ter sido já acolhida por duas vezes (em 2008 e em 2009) pelo Museu Colecção Berardo e pela sua livraria, a Bshop. São postais de Natal mas o conceito poderia ser usado em qualquer altura do ano: o artista Pedro Cabrita Reis fez os desenhos, que por sua vez foram transformados em carimbos; na livraria venderam-se os postais em branco e os visitantes adquiriram-nos, ilustrando-os livremente com as figuras imaginadas pelo artista português. Os postais foram ainda digitalizados e colocados on-line, para que, para além do original, os seus autores dispusessem de imediato de uma versão electrónica, que pudesse ser enviada em alguns cliques. A combinação de técnicas (desenho, carimbo, reprodução digital), a disponibilização de um postal em branco, assim como a possibilidade dada ao público de manipular uma obra de arte (os carimbos de Pedro Cabrita Reis) são aspectos que convocam uma certa hibridez e interactividade, bem mais próprios à nossa era de meios electrónicos instantâneos, onde a massa de imagens se multiplica e adensa, do que à era das reproduções analógicas e das ligações morosas.

The idea seems to have come from the photograph Fernando Gonçalves, and to have been received twice (in 2008 and in 2009) by the Museum Collection Berardo and by the bookshop, Bshop. They're Christmas cards but the concept seems to be possible to use in any occasion: the artist Pedro Cabrita Reis made the drawings and these drawings became rubber stamps; in the bookshop they sold blank postcards and visitors bought them and illustrated them with the pictures imagined by the Portuguese artist. The postcards were scanned and published on-line in order to allow their authors to send an electronic version in a few seconds. The mix of techniques (drawings, stamps, digital reproduction), the proposition of a blank postcard, as well as the possibility offered to the public of manipulating an artwork (the stamps of Pedro Cabrita Reis) convoke a certain hybridism and interactivity, which are more associated with our era of electronic media, where the mass of images is more and more dense, than with the era of analogical reproductions and slow connections.

Sunday, May 23, 2010

O riso e o risível: forma e subjectividade


No mundo dos bilhetes postais, deparamo-nos, amiúde, com exemplares presumivelmente cómicos. Apresentam, quase todos, cenas e personagens que se ajustam ao protótipo do risível avançado por Henri Bergson (1983: 9 e 11): “desajeitados” e “grandes desviados”. Confesso que raramente me fazem rir. Já não digo às gargalhadas, contentar-me-ia com algumas cócegas no espírito.



Este postal ilustrado é capa de um livro clássico (Kyrou, 1966). E, para além de fazer cócegas no espírito, fornece um bom pretexto para dois apontamentos atravessados:

1 – O risível pode provir mais da forma do que do conteúdo. Parece-me ser o caso do “humor mais criativo”;

2 – O risível pode ocorrer, não porque observamos, desprendidamente, um “desajeitado” (Charlot) ou um “grande desviado” (Don Quixote), mas, outrossim, porque aquilo que nos é dado observar nos deixa , a nós, sem jeito, nos desvia para outros jogos (a que a razão é, porventura, alérgica).

Referências:

BERGSON, Henri (1983), O Riso. Ensaio sobre a significação do cómico, Rio de Janeiro, Zahar Eds.

KYROU, Ado (1966), L’Age d’Or de la Carte Postale, Paris, Balland.


Monday, May 3, 2010

Propaganda e humor mortífero

Na introdução ao livro A Obra de François Rabelais e a Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, M. Bakhtin esboça uma breve história do riso grotesco. Século após século, da Idade Média até ao modernismo, passando pelo romantismo, o riso tende a perder universalidade, ambivalência, envolvimento, esperança e ímpeto regenerador. Acentua-se, em contrapartida, a vertente satírica, retórica, sentenciosa e sectária. O caldeirão turbulento do tempo de Rabelais cede lugar ao chicote e à vergastada. Outrora aglutinador e contagiante, o riso passa a dividir e a excluir, castiga o indesejável e exorciza a alteridade. Descobre-se arrepiante e sombrio. “O mundo do grotesco romântico é mais ou menos terrível e estranho ao homem. Tudo o que é corrente, banal, habitual, reconhecido por todos, torna-se, num ápice, insensato, duvidoso, estranho e hostil ao homem. O seu mundo transforma-se subitamente num mundo exterior. E o que é familiar e tranquilizador revela, de repente, a sua face terrível. (...) Enquanto que o grotesco da Idade Média e do Renascimento, aparentado à cultura cómica popular, só conhece o terrível nos espantalhos cómicos, isto é no terrível vencido pelo riso” (Bakhtin: 48). As guerras são pantominas delirantes e a morte, sempre omnipresente, é uma morte prenhe, que ri e dança à semelhança das terracotas e dos frescos medievais. Esta morte transitória e ambivalente, a rebentar de vida, tende a ser substituída por uma morte estéril, espécie de portal para o abismo e o vazio, ou seja, por “um grotesco mutilado, efígie do demónio da fecundidade com o falo cortado e o ventre encolhido” (Bakhtin: 62).

Esta referência a M. Bakhtin vem a propósito de alguns postais ilustrados de propaganda circulados durante a primeira República. A História do humor não é porventura tão líquida quanto o sugere a proposta de M. Bakhtin, não deixa, porém, de ser uma tentação procurar aplicá-la a três postais que mostram a República, zelosa e higienista, a escorraçar os indesejáveis à chicotada e à vassourada. Universalidade ou parcialidade? Ambivalência ou univocidade? Comunhão ou alienação? Homeopatia ou exorcismo da diferença? Regeneração ou exorcismo? Esperança ou melancolia? Abertura ou abismo? Dobra festiva ou sombria? Riso pantagruélico ou satírico? Folia ou angústia? Humor carnavalesco ou “humor mortífero”, para retomar a expressão de Jean Paul Richter?...

Estes postais contêm caricaturas. As caricaturas, tal como as caretas e as paródias, derivam, segundo M. Bakhtin, da máscara, que “exprime a alegria das alternâncias e das reencarnações, a alegre relatividade, a alegre negação da identidade e do sentido único, a negação da coincidência estúpida consigo mesmo; a máscara é a expressão das transferências, das metamorfoses, da violação das fronteiras naturais, da ridicularização, dos sobrenomes; a máscara encarna o princípio do jogo da vida” (49). Até que ponto a máscara, tal como a entende M. Bakhtin, se ajusta a estas caricaturas?

Referências:

Bakhtine, Mikhaïl (1970), L’Oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance, Paris, Gallimard.

Richter, Jean Paul (1804), Cours préparatoire d’esthétique, Lausanne, l ‘Âge d’ Homme, 1979.

Ventura, António (2010), Os Postais da Primeira República, Lisboa, Tinta da China e Centenário da República 1910-2010.