Sunday, November 25, 2012

Uma vez em Coimbra eu vi…


Uma vez em Coimbra eu vi

Uma curiosa associação entre um postal ilustrado e um dístico de quarto de hotel (convite) alusivo à mesma finalidade, a divulgação da XVII edição do evento – caminhos do cinema português – (Coimbra, 14 a 23 de Novembro de 2010). Já tínhamos visto postais ilustrados reproduzidos em cartaz, ou em cartão (de visita, de convite, etc.), mas esta versão, para nós, foi uma novidade.
 
Seria interessante admitir que o postal ilustrado, por ser de divulgação indistinta, se dirige ao público em geral, e que o convite, embora lascivamente dúbio, por sugerir a permissão para partilhar uma intimidade exclusiva, é destinado a uns quantos eleitos. Porque não?! Mas apesar de serem dois suportes de comunicação feitos do mesmo material, de dimensões semelhantes, porém, com canais de difusão supostamente distintos, no final, são apenas mais dois artefactos que chegaram juntos por correio, dentro do mesmo subscrito, que utilizam dois arquétipos da informação de massas somente para promover o dito acontecimento, na ideia de que o pretendido é legitimamente obter a maior adesão possível.



Wednesday, October 31, 2012

Postais possíveis


No campo teórico, interrogamo-nos acerca do poder que tem o postal ilustrado de patrimonializar uma cidade ou um país, na medida em que este uniformiza o imaginário sobre determinada paisagem urbana, ao construir e fixar a imagem identitária de um lugar, ancorada no « conceito canónico de patrimônio, de cariz monumentalista »[1].

Este questionamento também está presente no campo artístico, como podemos observar nas experimentações de Andreas Müller-Pohle. No projecto Dacapo I e II, desenvolvido entre os anos de 1988 e 1991, Müller-Pohle risca e faz sobreposições nos negativos fotográficos de reproduções de postais ilustrados. O fotógrafo interfere no cânone pictórico do país ou cidade congelado no cliché, seja extirpando-o totalmente da representação ou deslocando-o de seu lugar de referência. Se por um lado, tal interferência opera no sentido de "esvaziar" a imagem  postalizada de seu conceito canónico, por outro, abre uma nova janela da qual é possível vislumbrar a paisagem desde outra perspectiva. O observador pode re-elaborar a representação a partir dos vestígios deixados no negativo, pluralizando os imaginários possíveis sobre aquele lugar.

Traditions d'Alsace, 1989 [2] 
Cristo Redentor, 1988 [2]



[1] BANDEIRA, Miguel (2011) A paisagem urbana através dos postais ilustrados: os “cheios” e os “vazios” 
[2] Andreas Müller-Pohle: Interfaces. Foto+Video 1977–1999. Göttingen: European Photography, 1999. ISBN 3-923283-51-2


Friday, October 19, 2012

A linguagem dos selos



"A verdadeira linguagem dos sellos". Bilhete-postal ilustrado editado em língua portuguesa,
 e circulado em Portugal em 1904 (col. particular) [1].


Se hoje não se pode tomar como regra a protecção da reputação das meninas solteiras das "bocas do mundo", há um século era uma preocupação comum a qualquer pai ou mãe que quisesse o bem de uma filha. Apesar de todos os cuidados, o enamoramento, o desejo ou mesmo o amor eram, e continuam a ser, uma aventura arriscada do espírito e da carne que nem sempre acaba bem.

A proibição da convivência em privado, levou ao uso de recursos engenhosos para transmitir o que não era permitido dizer. Usar o piscar de olhos para comunicar em código poderia levar a visitas frequentes ao médico e a uma fama de tique nervoso, que em sociedade não auguraria bom partido a uma menina que se queria bem casada. Em alternativa, a limitação da liberdade de comunicação, levou à criação de alguns códigos discretos como o dos leques, o das flores, o dos perfumes, e o dos selos, que permitiam comunicar o essencial entre quem se queria bem e desejava mais.

O código dos selos de correio foi difundido no ocidente, através de bilhetes postais impressos para o efeito, a partir do início do século XX. É claro que, não havendo um código universal da comunicação através dos selos, mas vários, ambos os correspondentes tinham de adoptar um código comum. Em algum momento da sua relação um dos enamorados teria de passar a chave ao outro, num postal ou em cópia fidedigna, e, mesmo assim, um engano podia levar uma menina comprometida a entreabrir a porta do seu coração.

Sendo um código necessariamente limitado, através dele ficamos a saber que no namoro o essencial é saber se ambos se amam, se não vão cair no esquecimento do outro, se irão poder ver-se em breve, e, sobretudo, receber um "sim", a palavra que mais se espera num romance, e a que mais é de temer entre quem se conhece mal.



1. Edição impressa em Florença pelo Stab. Grafico C. A. Materassi / Pia Casa di Lavoro, e elaborada a partir do postal "Le seul language des timbres-poste", editado em Bruxelas, do qual conhecemos exemplares circulados em 1900.

Tuesday, October 16, 2012

Ilusões: da iluminura ao postal ilustrado

O postal do Commercio do Minho, de 1903, publicado pela Catarina Miranda (http://postaisilustrados.blogspot.pt/, 14 de Outubro) trouxe-me à memória algumas antigualhas. Da superfície do postal parecem irromper “dous rasgões irregulares, artisticamente dispostos, com suas sombras e tons nos bordos”.

Postal ilustrado do Commercio do Minho.1903

Postais ditos com relevo já circulavam no início do séc. XX. Atente-se, por exemplo, neste Mappa do Coração, postado em 1914 a bordo do navio Congo. Mas não, a ideia não era fazer um postal com relevo mas um postal que proporcionasse a sensação de uma terceira dimensão. Mais ou menos como algumas imagens medievais. Recordo três que tinha ciosamente reservadas para um texto que nunca mais acaba sobre a desgravitação (ausência ou distorção da gravidade) nas iluminuras medievais e nos media actuais.


Postal com relevo. Postado a bordo do navio Congo, em 1904

O livro de horas de Gian Galiazzo Visconti, duque de Milão, foi feito no final do séc. XIV por dois ilustradores: Giovannino dei Grassi e, após a sua morte, Belbello da Pavia. Está depositado na Biblioteca Nacional de Florença.  Concentrêmo-nos na seguinte página (L’eterno e gli eremiti):



Visconti Hours. L’eterno e gli eremiti. Finais séc. XIV


Parte da imagem condiz com o esquem visual a a que estamos habituados: as torres e os veados “pesam” no sentido do fundo da página. Mas o recorte com a divindade e com os demónios lembra os rasgões do postal do Commercio do Minho; em relação à superfície da página, sobressai, por um lado, o arco com os raios de fogo e afunda-se, por outro, o círculo reservado à divindade. Os insectos, por sua vez, desempenham um papel deveras curioso. A disposição, aliada à minúcia da pintura, dá a impressão que os insectos  transitam sobre a página fora da imagem. Em suma, numa parte da imagem o eixo de gravidade remete, normalmente, para o fundo de página e noutra parte o eixo de gravidade remete, deliberadamente, para a superfície da página.
Os ilustradores da Idade Média eram exímios na criação de ilusões. Algumas artes foram sucessivamente apuradas. É o caso das seguintes imagens do Da Costa Hours, um livro de horas português, concluído cerca de 1515, da autoria de  Simon Bening. Vendido a estrangeiros em finais do século XIX, destaca-se como um dos manuscritos mais preciosos da Morgan Library, de Nova Iorque.

Da Costa Hours, São Jerónimo em Penitência, ca 1515


Neste livro de horas, “São Jerónimo em penitência” é emoldurado por flores que dão a impressão de terem sido pousadas sobre a imagem. Mais complexa resulta a disposição das flores no fundo da página: nascem na imagem para logo (sobres)sair dela. Registe-se, por último, que, volvido um século, aparece, na parte inferior da página, uma abelha a assumir a função das moscas do Livro de Horas de Visconti.
Da Costa Hours. Flagelação de Cristo. Cerca 1515


Os recursos para obter um efeito de relevo abundavam na Idade Média. Na “Flagelação de Cristo”, no Livro de Horas de Da Costa, as voltas dos colares apelam a uma focagem tacteante que dificulta qualquer veleidade de achatamento da imagem. O colar vermelho, pendurado na própria moldura da cena da flagelação, parece oscilar para dentro e para fora da imagem.
O que têm os livros de horas a ver com os postais ilustrados? Muito pouco. Uns são de devoção, os outros nem por isso. Os livros de horas eram caríssimos, os postais são acessíveis. Os livros de horas eram bens familiares de luxo transmitidos ciosamente de geração em geração, facto que explica terem sobrevivido milhares de exemplares. Mas há algumas características que os aproximam. Destinam-se ao prazer do olhar, bem como à intimidade do toque. São portáteis e para uso individual, senão privado. São praticamente do mesmo tamanho. Partilham, também, alguns traços de estilo. Por último, ambos surgem em momentos excepcionais de explosão social da imagem: por volta do século XIV e finais do século XIX.

Monday, October 15, 2012

Umas barbas precisam de tempo para crescer!



E, no entanto, é um postal ilustrado, porque:


- é uma imagem impressa em cartão, com o formato e a textura que o torna portátil, endossável;

- é um exemplar de uma série reproduzível até à infinitude

- é uma fantasia apelativa à imaginação

- é uma veículo de comunicação (sobretudo visual) que sugere, no mínimo, uma legenda

- é para difundir… neste caso o Facebook

- é ponto encontro entre a inscrição individual e a comunicação de massas

Legenda: umas barbas precisam de tempo para crescer
 
 
Some beards need time to grow!

Yet, it is a postcard, because:

- Is an image printed on card, with the shape and texture which makes it portable, endorsable;
- Is a copy of a series reproducible to infinity
- Is a fantasy appealing to the imagination
- Is a communication medium (mainly visual) suggests that at least one subtitle
- Is to spread ... in this case Facebook
- Is meetingpoint between the individual writing and mass communicatio

subtititle: Some beards need time to grow
 

Sunday, October 14, 2012

bilhetes postaes illustrados



Bilhete postal ilustrado, 1903. 
Edição: Manoel Carneiro. 
Cortesia: Pedro Barros.

Em 1903 Manoel Marques Carneiro, "honrado negociante da rua de Souto e primoroso amador de photographia" editou uma série de postais ilustrados que reproduzem vistas da cidade e as primeiras páginas dos títulos da imprensa periódica bracarense do início do século.

Sobre este postal, que reproduz o n.º 4476 de 14 de Fevereiro de 1903 do Comércio do Minho, com o Campo das Hortas em fundo, disse a redacção:

"A pagina do nosso jornal apresenta dous rasgões irregulares, artisticamente dispostos, com suas sombras e tons nos bordos, denunciando talento, bom gosto e savoir faire pouco vulgares do nosso photographo. Aqui testimunhamos ao intelligente auctor de tão original lembrança, o nosso profundo conhecimento e enthusiastico parabem pela accentuada aptidão que demonstra para trabalhos d’este género".

Saturday, October 13, 2012

Figuras históricas em postais / Historical figures in postcards


Muitos postais ilustrados fizeram circular a imagem de personalidades com visibilidade no espaço público. Mas o que faz Amir Zainorin é diferente. Este artista oriundo da Malásia mas residente na Dinamarca recria a imagem de figuras históricas com colagens de postais gratuitos que recolhe em restaurantes e espaços culturais dinamarqueses. As mil e uma funções dos postais! (mais detalhes aqui)



Many picture postcards made the image of some relevant people circulate widely. But what Amir Zainorin does is different. This artist, who comes from Malasia but living now in Denmark, recreates the image of historical figures with collage work. He uses free cards that he collects from denish restaurants and cultural houses. The thousands functions postcards have! (more details here)