os meus postais de boas festas (personal Christmas cards)
Desde há uns anos a esta parte, ainda antes da crise, tendo-me desafeiçoado do espírito consumista da quadra, resolvi valorizar a comunicação desse júbilo desenhando ou montando eu próprio os meus postais de Boas Festas. Quiçá com a ingenuidade de dar o meu contributo para a recuperação desse outro, arqueológico, que nos irmana por estes dias, na doce ilusão de infância de que podemos ser melhores do que somos... Em busca do desejado espírito mágico de amor e de futuro que ecumenicamente celebramos um pouco por todo lado,
O testemunho aqui fica, desde 2008... Um convite à comunicação intensa, de acordo com o modo como cada um se expressar melhor...
Sem o patrocínio de qualquer associação comercial ou programa de recuperação económica, o lema é: compre menos e comunique mais!
buy less, communicate more!
Friday, December 28, 2012
Sunday, December 23, 2012
Friday, December 21, 2012
Um gif(t) de Natal
Christmas gif(t) de
Natal, por Kristian Andrews (http://www.christmasgifs.org/)
A propósito do Natal que se aproxima,
e dos tradicionais postais de Boas Festas, ocorreu-me mencionar um 'website' de
postais electrónicos (http://www.christmasgifs.org/) e
um breve artigo sobre o tema, publicado hoje num conhecido periódico
electrónico
(http://p3.publico.pt/cultura/design/5871/postais-de-natal-nao-obrigado-agora-envio-um-gif).
Como é habitual, a questão da inovação
é colocada nos termos "o novo substitui o velho", ideia que a
experiência nos diz ser uma opinião simplista inscrita na ideia positivista de
progresso. É mais do que provável a sua coexistência, e é bem possível que o
'velho' ainda ande por cá quando o novo for destronado.
Dos exemplares disponíveis, escolhi o 'Christmas Gif(t)' concebido por Kristian Andrews. Mostra-nos o nascimento do Messias, que no actual contexto apocalíptico e para espanto de Maria se transforma num ser grotesco, à imagem do restauro do retrato de Cristo pela mão da "habilidosa" velhinha de Borja, que se tornou notícia e correu o mundo bem mais depressa do que a sua palavra.
Sunday, November 25, 2012
Uma vez em Coimbra eu vi…
Uma vez em Coimbra eu
vi…
Uma curiosa associação entre um
postal ilustrado e um dístico de quarto de hotel (convite) alusivo à mesma
finalidade, a divulgação da XVII edição do evento – caminhos do cinema português – (Coimbra, 14 a 23 de Novembro de
2010). Já tínhamos visto postais ilustrados reproduzidos em cartaz, ou em cartão (de visita, de convite, etc.),
mas esta versão, para nós, foi uma novidade.
Seria interessante admitir que o
postal ilustrado, por ser de divulgação indistinta, se dirige ao público em
geral, e que o convite, embora lascivamente dúbio, por sugerir a permissão para partilhar uma
intimidade exclusiva, é destinado a uns quantos eleitos. Porque não?! Mas apesar de
serem dois suportes de comunicação feitos do mesmo material, de dimensões
semelhantes, porém, com canais de difusão supostamente distintos, no final, são apenas
mais dois artefactos que chegaram juntos por correio, dentro do mesmo subscrito, que
utilizam dois arquétipos da informação de massas somente para promover o dito
acontecimento, na ideia de que o pretendido é legitimamente obter a maior adesão possível.
Wednesday, October 31, 2012
Postais possíveis
No campo
teórico, interrogamo-nos acerca do poder que tem o postal ilustrado de
patrimonializar uma cidade ou um país, na medida em que este uniformiza o
imaginário sobre determinada paisagem urbana, ao construir e fixar a imagem identitária de um lugar, ancorada no
« conceito canónico de patrimônio, de cariz monumentalista »[1].
Este questionamento também está presente no campo artístico, como podemos observar
nas experimentações de Andreas Müller-Pohle. No projecto Dacapo I e
II, desenvolvido entre os anos de 1988 e 1991, Müller-Pohle risca e faz
sobreposições nos negativos fotográficos de reproduções de postais ilustrados. O
fotógrafo interfere no cânone pictórico do país ou cidade congelado no cliché, seja
extirpando-o totalmente da representação ou deslocando-o de seu lugar de
referência. Se por um lado, tal interferência opera no sentido de "esvaziar" a imagem postalizada de seu conceito canónico, por outro, abre uma nova janela da
qual é possível vislumbrar a paisagem desde outra perspectiva. O observador pode
re-elaborar a representação a partir dos vestígios deixados no negativo,
pluralizando os imaginários possíveis sobre aquele lugar.
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| Traditions d'Alsace, 1989 [2] |
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| Cristo Redentor, 1988 [2] |
Friday, October 19, 2012
A linguagem dos selos
"A verdadeira linguagem dos sellos". Bilhete-postal ilustrado editado em língua portuguesa,
e circulado em Portugal em 1904 (col. particular) [1].
Se hoje não se pode tomar como
regra a protecção da reputação das meninas solteiras das "bocas do
mundo", há um século era uma preocupação comum a qualquer pai ou mãe que quisesse o bem de uma
filha. Apesar de todos os cuidados, o enamoramento, o desejo ou mesmo o amor
eram, e continuam a ser, uma aventura arriscada do espírito e da carne que nem
sempre acaba bem.
A proibição da convivência em
privado, levou ao uso de recursos engenhosos para transmitir o que não era
permitido dizer. Usar o piscar de olhos para comunicar em código poderia levar a visitas frequentes ao
médico e a uma fama de tique nervoso, que em sociedade não auguraria bom
partido a uma menina que se queria bem casada. Em alternativa, a limitação da
liberdade de comunicação, levou à criação de alguns códigos discretos como o
dos leques, o das flores, o dos perfumes, e o dos selos, que permitiam
comunicar o essencial entre quem se queria bem e desejava mais.
O código dos selos de correio foi
difundido no ocidente, através de bilhetes postais impressos para o efeito, a
partir do início do século XX. É claro que, não havendo um código universal da
comunicação através dos selos,
mas vários, ambos os correspondentes tinham de adoptar um código comum.
Em algum momento da sua relação um dos enamorados teria de passar a chave ao
outro, num postal ou em cópia fidedigna, e, mesmo assim, um engano podia levar
uma menina comprometida a entreabrir a porta do seu coração.
Sendo um código necessariamente
limitado, através dele ficamos a saber que no namoro o essencial é saber se
ambos se amam, se não vão cair no esquecimento do outro, se irão poder ver-se
em breve, e, sobretudo, receber
um "sim", a palavra que mais se espera num romance, e a que
mais é de temer entre quem se conhece mal.
1. Edição impressa em Florença pelo Stab. Grafico C. A. Materassi / Pia Casa di Lavoro, e elaborada a partir do postal "Le seul language
des timbres-poste", editado em Bruxelas, do qual conhecemos exemplares
circulados em 1900.
Tuesday, October 16, 2012
Ilusões: da iluminura ao postal ilustrado
O postal do Commercio do Minho, de 1903, publicado pela Catarina Miranda (http://postaisilustrados.blogspot.pt/,
14 de Outubro) trouxe-me à memória algumas antigualhas. Da superfície do postal parecem irromper “dous rasgões irregulares, artisticamente dispostos, com
suas sombras e tons nos bordos”.
![]() |
| Postal ilustrado do Commercio do Minho.1903 |
Postais ditos com relevo já circulavam no início do séc. XX. Atente-se, por exemplo, neste Mappa do Coração, postado em 1914 a bordo do navio Congo. Mas não, a ideia não era fazer um postal com relevo mas um postal que proporcionasse a sensação de uma terceira dimensão. Mais ou menos como algumas imagens medievais. Recordo três que tinha ciosamente reservadas para um texto que nunca mais acaba sobre a desgravitação (ausência ou distorção da gravidade) nas iluminuras medievais e nos media actuais.
Postal com relevo. Postado a bordo do navio Congo, em 1904
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O livro de horas de Gian Galiazzo Visconti, duque de Milão, foi feito no final do séc. XIV por dois ilustradores: Giovannino dei Grassi e, após a sua morte, Belbello da Pavia. Está depositado na Biblioteca Nacional de Florença. Concentrêmo-nos na seguinte página (L’eterno e gli eremiti):
Visconti Hours. L’eterno e gli eremiti. Finais séc. XIV
|
Parte da imagem condiz com o esquem visual a a que estamos habituados: as torres e os veados “pesam” no sentido do fundo da página. Mas o recorte com a divindade e com os demónios lembra os rasgões do postal do Commercio do Minho; em relação à superfície da página, sobressai, por um lado, o arco com os raios de fogo e afunda-se, por outro, o círculo reservado à divindade. Os insectos, por sua vez, desempenham um papel deveras curioso. A disposição, aliada à minúcia da pintura, dá a impressão que os insectos transitam sobre a página fora da imagem. Em suma, numa parte da imagem o eixo de gravidade remete, normalmente, para o fundo de página e noutra parte o eixo de gravidade remete, deliberadamente, para a superfície da página.
Os ilustradores da Idade Média eram exímios na criação de ilusões. Algumas artes foram sucessivamente apuradas. É o caso das seguintes imagens do Da Costa Hours, um livro de horas português, concluído cerca de 1515, da autoria de Simon Bening. Vendido a estrangeiros em finais do século XIX, destaca-se como um dos manuscritos mais preciosos da Morgan Library, de Nova Iorque.
| Da Costa Hours, São Jerónimo em Penitência, ca 1515 |
Neste livro de horas, “São Jerónimo em penitência” é emoldurado por flores que dão a impressão de terem sido pousadas sobre a imagem. Mais complexa resulta a disposição das flores no fundo da página: nascem na imagem para logo (sobres)sair dela. Registe-se, por último, que, volvido um século, aparece, na parte inferior da página, uma abelha a assumir a função das moscas do Livro de Horas de Visconti.
| Da Costa Hours. Flagelação de Cristo. Cerca 1515 |
Os recursos para obter um efeito de relevo abundavam na Idade Média. Na “Flagelação de Cristo”, no Livro de Horas de Da Costa, as voltas dos colares apelam a uma focagem tacteante que dificulta qualquer veleidade de achatamento da imagem. O colar vermelho, pendurado na própria moldura da cena da flagelação, parece oscilar para dentro e para fora da imagem.
O que têm os livros de horas a ver com os postais ilustrados? Muito pouco. Uns são de devoção, os outros nem por isso. Os livros de horas eram caríssimos, os postais são acessíveis. Os livros de horas eram bens familiares de luxo transmitidos ciosamente de geração em geração, facto que explica terem sobrevivido milhares de exemplares. Mas há algumas características que os aproximam. Destinam-se ao prazer do olhar, bem como à intimidade do toque. São portáteis e para uso individual, senão privado. São praticamente do mesmo tamanho. Partilham, também, alguns traços de estilo. Por último, ambos surgem em momentos excepcionais de explosão social da imagem: por volta do século XIV e finais do século XIX.
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