Thursday, January 17, 2013

“O Beijo do Hôtel de Ville” de R. Doisneau



Ao depararmo-nos com a “entrada” da Aline, um belo e estimulante apontamento da relação intensa da imagem de uma grande capital (Paris) com um sentimento universal (o Amor), fomos imediatamente transportados para aquele arquétipo fotográfico d’ “O beijo do Hôtel de Ville” (1950), captado para eternidade, da cadeira de um café da Rue Rivoli, por Robert Doisneau (1912-1994). Da LIFE para o postal, do postal para a fotografia, o cartaz, o poster, etc. supõe-se que terá sido a fotografia mais vendida da História (1)…

Tempos felizes… Onde uma nova geração, ressurgida dos escombros da guerra, exprimia-se desinibidamente, convicta dessa certeza de futuro, de reencontro, de paz e prosperidade…de uma viçosidade que medrava nas cinzas dessa Paris outrora ocupada, racionada, com medo…

Uma boa sugestão para reflectir os tempos que hoje vivemos…

Bravo Aline!

 

PS: já agora, para o ambiente ser perfeito, liguem-se ao http://www.jazzradio.com/pariscafe

 

(1)   - http://dudupg.blogspot.pt/2012/06/o-beijo-do-hotel-de-ville-foto-doisneau.html

Saturday, January 12, 2013

A cidade-postal do amor

"Sous le ciel de Paris marchent les amoureux"

    Mur des je t’aime, Place Abbesses, Montmartre, Paris 

Diante do “Mur des je t’aime”, na Place Abbesses, no Montmartre, casais param para selar um beijo e se fazerem fotografar. Trata-se de um painel onde se lê “amo-te” nos mais variados idiomas, e que é um ponto turístico incontornável para os apaixonados que visitam Paris. O “Mur des je t’aime” figura como mais um postal da cité de l’amour.

Há um imaginário romântico fortemente vinculado à cidade de Paris e que é amplamente difundido por diversos produtos culturais mediáticos. A publicidade de Paris, como destino turístico, remete frequentemente ao amor. Esta construção mental e atmosfera romântica que paira sobre a cidade foi engendrada e sedimentada culturalmente ao longo de alguns séculos, criando um estado de espírito e uma pré-disposição que é capaz de interferir na percepção e na experiência dos sujeitos na cidade.

As inovações tecnológicas ocorridas na segunda metade de 1900, sobretudo no que tange ao desenvolvimento dos meios de transporte, influenciaram positivamente o aumento progressivo do turismo de massa, que foi fortalecido pela criação do período de férias e também pela generalização do costume das viagens de lua-de-mel. Nesta altura, a capital do século XIX já era um destino cativo. O postal ilustrado desempenhou um relevante papel durante a alta atividade turística deste período, sendo um elemento quase indissociável das viagens. Tecnologia de criação do imaginário, o postal carrega signos que transmitem uma imagem tal de uma cidade. A imagem de um lugar impressa no postal é uma representação, um discurso sobre a cidade, sobre a região, ou sobre o país. Deste modo, o postal contribui para constituir “um corpo de imagens que passa a ser entendido como o portifolio de creditação e disciplina iconográfica dos trechos que se impunham como os mais ofertáveis da cidade” (Bandeira, 2007). Nesta perspectiva, o ambiente urbano, material e subjetivo, simultaneamente produz e faz circular significados, mas também se dá, ele próprio, a consumir pelos sentidos.

No caso de Paris, pode-se dizer que estes trechos mais ofertáveis (e mesmo os não tão ofertáveis assim) são revestidos por uma atmosfera que encoraja o comportamento amoroso com estímulos textuais, visuais, sonoros, olfativos, gestuais e paisagísticos que fazem parte do imaginário do amor romântico – o que poderia ser abordado de acordo com a perspectiva de análise da semiótica social e da multimodalidade. Os monumentos e pontos turísticos exaustivamente fotografados, ilustrados, pintados, e reproduzidos em postais servem de cenário para as fotografias de casais, imagens que depois se tornam, elas próprias, postais da cidade.

Com uma rápida pesquisa exploratória pelos quiosques de turismo ou pelas lojas de souvenirs, vê-se que nos postais que vendem uma Paris romântica, a repetição de alguns signos constituem uma gramática visual do amor – composta pela predominância de certos elementos e composições para a construção dos discursos, como é o caso das recorrentes fotografias em preto e branco, com a imagem de um casal enlaçado ou envolvido num beijo, muitas vezes com a Torre Eiffel ao fundo. 

Estes postais do amor, reproduzem um discurso recorrente sobre a cidade de Paris que está presente em filmes, músicas, livros, guias comerciais de turismo, etc. Mas estes postais também captam o que circula no imaginário social, pois correspondem a um determinado estado de espírito de disposição romântica, que se reproduz e se dissemina em imagem, mas também em comportamento.


Série de postais à venda em quiosque em frente ao Centre Pompidou, Paris



Cadeados do amor na Pont Neuf, em Paris
Fontes:
Bandeira, Miguel Sopas de Melo (2007) Memória e paisagem urbana: a construção da imagem patrimonial de Braga desde acervos ilustrados e fotográficos de referência. Comunicação apresentada na Conferência Imagem e Pensamento – Conferência Internacional em Lisboa. Museu Colecção Berardo, org. Centro de Estudos de Comunicação e Linguagem / Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade.
Aiello, Giorgia (2010) From wound to enclave: the visual-material performance of urban renewal in Bologna’s Manifattura delle Arti In Western Journal of Communication. http://mc.manuscriptcentral.com/rwjc

Thursday, January 10, 2013

escripta à pressa


Arrayollos 27 de Julho de 1909
Minhas queridas manas
Em primeiro logár desejo que esta as vá encontrar de perfeita saúde; eu cá vou indo mal com os meus cálos. Mana Conceição tenho-te a dizer que a mana Joaquina deu à luz uma robusta menina. Mana cá recebi a tua carta na qual vi que disseste que a mãe tinha ido para Lisboa, inda bem, haver se mata as saudades. Mando-te dizer que me digas em que dia são os meus exames de 2.º grau porque cá dizem que é num dia que a professora não lhe parece que sejam, por isso vá se saber o dia certo, e assim que saibas manda-me dizer; eu tenho feito muitas despezas, o dinheiro que me mandaram já o gastei e não chegou, as professoras tem-me dado muita coisa que depois tenho que pagar, olha eu cá ofereci a nossa casa à professora mas ela disse que não, porque se for vae para casa da Albina que é uma amiga; que lá irá umas vezes por outras mas de todo não; porque parece mál à outra; agora a ver se me podes mandar dinheiro para o comboio porque a mana não mo pode dar. Saude até á vólta, não tenho mais vagar para mais, recebam beijos de todos e as minhas manas recebam desta muitos beijos e abraços que as deseja ver e abraçar. Em escrevendo a mãe manda muitas saudades que também desejo vêr e abraçar.
Desculpa de ir tão mál feita porque foi escripta à pressa.

Francisca

Recebam saudades da professora e da familia della
O menino da sr. Joaquina cada vez mais bonito


Mesmo não havendo vagar para mais e apesar das incorrecções, a distância que nos separa desta carta não deveria justificar a ausência de palavras inteiras nos meios de comunicação mais recentes. Para onde estamos a caminhar? Falamos tanto e tão pouco...

Friday, December 28, 2012

Compre menos e comunique mais! (buy less, communicate more!)

os meus postais de boas festas (personal Christmas cards)

Desde há uns anos a esta parte, ainda antes da crise, tendo-me desafeiçoado do espírito consumista da quadra, resolvi valorizar a comunicação desse júbilo desenhando ou montando eu próprio os meus postais de Boas Festas. Quiçá com a ingenuidade de dar o meu contributo para a recuperação desse outro, arqueológico, que nos irmana por estes dias, na doce ilusão de infância de que podemos ser melhores do que somos... Em busca do desejado espírito mágico de amor e de futuro que ecumenicamente celebramos um pouco por todo lado,
O testemunho aqui fica, desde 2008... Um convite à comunicação intensa, de acordo com o modo como cada um se expressar melhor...

Sem o patrocínio de qualquer associação comercial ou programa de recuperação económica, o lema é: compre menos e comunique mais!

buy less, communicate more!

Friday, December 21, 2012

Um gif(t) de Natal


Christmas gif(t) de Natal, por Kristian Andrews (http://www.christmasgifs.org/)



A propósito do Natal que se aproxima, e dos tradicionais postais de Boas Festas, ocorreu-me mencionar um 'website' de postais electrónicos (http://www.christmasgifs.org/) e um breve artigo sobre o tema, publicado hoje num conhecido periódico electrónico (http://p3.publico.pt/cultura/design/5871/postais-de-natal-nao-obrigado-agora-envio-um-gif).

Como é habitual, a questão da inovação é colocada nos termos "o novo substitui o velho", ideia que a experiência nos diz ser uma opinião simplista inscrita na ideia positivista de progresso. É mais do que provável a sua coexistência, e é bem possível que o 'velho' ainda ande por cá quando o novo for destronado. 

Dos exemplares disponíveis, escolhi o 'Christmas Gif(t)' concebido por Kristian Andrews. Mostra-nos o nascimento do Messias, que no actual contexto apocalíptico e para espanto de Maria se transforma num ser grotesco, à imagem do restauro do retrato de Cristo pela mão da "habilidosa" velhinha de Borja, que se tornou notícia e correu o mundo bem mais depressa do que a sua palavra.


Sunday, November 25, 2012

Uma vez em Coimbra eu vi…


Uma vez em Coimbra eu vi

Uma curiosa associação entre um postal ilustrado e um dístico de quarto de hotel (convite) alusivo à mesma finalidade, a divulgação da XVII edição do evento – caminhos do cinema português – (Coimbra, 14 a 23 de Novembro de 2010). Já tínhamos visto postais ilustrados reproduzidos em cartaz, ou em cartão (de visita, de convite, etc.), mas esta versão, para nós, foi uma novidade.
 
Seria interessante admitir que o postal ilustrado, por ser de divulgação indistinta, se dirige ao público em geral, e que o convite, embora lascivamente dúbio, por sugerir a permissão para partilhar uma intimidade exclusiva, é destinado a uns quantos eleitos. Porque não?! Mas apesar de serem dois suportes de comunicação feitos do mesmo material, de dimensões semelhantes, porém, com canais de difusão supostamente distintos, no final, são apenas mais dois artefactos que chegaram juntos por correio, dentro do mesmo subscrito, que utilizam dois arquétipos da informação de massas somente para promover o dito acontecimento, na ideia de que o pretendido é legitimamente obter a maior adesão possível.