Saturday, September 7, 2013

Retratos



O retrato fotográfico tem tido, desde que apareceu no final do séc. XIX até aos nossos dias, acompanhados pelas redes sociais e pela partilha instantânea de imagens, um lugar privilegiado nas práticas artísticas, nas rotinas comerciais e nas recreações amadoras. Propício ao exercício da mais tradicional expressão visual e dos mais canónicos padrões estéticos, o retrato fotográfico tem sido também favorável à experimentação.  Na história do postal ilustrado, cujo papel é fundamental na difusão da fotografia, os retratos a preto e branco e a cores de atores e atrizes tornam-se cedo populares. Se no início do séc. XX são ainda os profissionais do teatro que fazem pose nos postais ilustrados (como lemos aqui), a partir dos anos 50, são as divas e os ídolos de Hollywood que passam a ser impressos em grande escala, e com o devido grão fotográfico, nos cartões de pequenas dimensões.

O retrato de Marilyn Monroe, tirado em 1957 por Richard Avedon, atualmente em exposição na National Portrait Gallery em Canberra na Austrália e editado em formato de postal no âmbito da mesma, não é uma imagem comum e muito menos um clássico postal ilustrado. Nele, a atriz que deu rosto às intrigas de cineastas como Fritz Lang, Howard Hawks, Billy Wilder e John Houston, não tem nem o sorriso rasgado nem a pose exuberante a que habituou as objetivas da sua época. De ombros encolhidos e boca entreaberta, Marilyn, um dos mais célebres ícones da cultura popular norte-americana, revela-se, no retrato de Richard Avedon – como, de resto, na sua conhecida biografia – uma estrela sombria. Este lado escuro da pin-up, que é ofuscado pelos filmes com happyending e pelos postais com pose, não só brilha nesta mostra de fotografia e nos postais que a publicitam, como parece fixar nela o reflexo de um imaginário contemporâneo em torno de um certo mal de vivre.

Saturday, August 31, 2013

Neves de agosto


Saraiva, A. (2011) A Guarda em Postal Ilustrado de 1901 a 1970. Guarda: Gabinete de Promoção para a Guarda. 

Eram uma meia dúzia de veraneantes na pequena loja envidraçada onde se improvisava anualmente uma feira do livro. Tinham chegado ali precipitados pelo calor estonteante de agosto, fugindo aos raios de sol da tarde, e evitando o cheiro a mar e a incêndio disperso pelo ar. Atravessavam o pavimento, pisando restos de areia  e reconheciam-se ao longe, pelos calções distraídos, pelas t-shirts que deixavam a descoberto as alças do biquíni, pelos óculos de sol na cabeça e as garrafas de água na mão. Rodeavam os livros impacientes, folheando daqui e dacolá. Nas bancas de contraplacado, um grande livro pálido, com uma fotografia a sépia da cidade da Guarda coberta de neve, chamou a minha atenção. Estaquei bem a meio do corredor, agarrei desajeitadamente o livro e, com algum vagar então, comecei a virar as páginas.

Era uma publicação dedicada aos postais ilustrados da Guarda circulados entre 1901 e 1970,  reeditada recentemente. Os tradicionais temas da cartofilia sucediam-se com a monotonia do tempo que passa e do tempo que faz no catálogo de promoção da cidade da beira interior que mal conhecia; mas, chegando a meio do livro, uma vintena de páginas era reservada aos postais fotográficos da Guarda em dias de neve... Os postais da Guarda com neve, vistos a partir de um agosto tórrido no litoral balnear português, pareciam provas de existência de uma cidade fantástica, de um povoado feérico, de uma terra de faz de conta: as fachadas dos velhos edifícios rendilhadas pela espessura branca da neve, os cavalos de madeira de um velho carrossel parados pelo Inverno gelado, os automóveis antigos com as suas muitas curvas arredondadas pelo pesado nevão, os portões de ferro bordados pela fina camada de neve, as árvores e os seus ramos suportando a queda de um grande floco branco, tudo isto pareciam visões de uma outra parte, cuja estranheza era agravada pelo agosto e pelos seus reclames de estâncias balneares, pelas suas fotografias de retiros estivais, pelos seus postais ilustrados de férias...


Interior do livro A Guarda em Postal Ilustrado de António Saraiva (secção de postais dedicados à neve)

Ocorreu-me então que ainda não tinha escrito nenhum postal nesse Verão, e que, se o fizesse, em vez da clássica fotografia do farol, do barco, do areal ou do mar, preferiria garatujar nas costas de um desses irreais postais fotográficos da Guarda coberta de neve, como quem quisesse reinventar o agosto.  

Wednesday, August 7, 2013

A terra treme




'A terra treme', título de um filme realizado nos anos 40 pelo italiano Luchiano Visconti, poderia também ser hoje uma legenda descritiva para o recente projeto do nova-iorquino Clement Valla. Na era dos media digitais, o artista norte-americano não recorreu ao cinema, meio de comunicação contemporâneo do postal ilustrado, para respigar, colecionar e montar imagens das dobras, curvas e trepidações do mundo. Com 'Postcards from Google Earth', Valla declara ter descoberto nos ambientes tridimensionais e nas imagens de satélite momentos de fragmentação, em que a familiar e harmoniosa superfície da terra aparece repentinamente desconhecida e inquietante. Nas suas próprias palavras, tratam-se de postais digitais de "estranhos momentos em que a ilusão da representação de uma superfície terrestre contínua e sem costuras parece desfazer-se". Mais informações sobre Postcards from Google Earth aqui

Thursday, June 13, 2013

Novos postais de Viana do Castelo

A Objectos Misturados dedica-se a criar peças únicas feitas manualmente. Recentemente desafiou 3 designers de Viana do Castelo a desenvolver uma ilustração para uma coleção de postais, cujo tema fosse a cidade de Viana do Castelo. O resultado é este...

Thursday, May 23, 2013

Os exóticos postais de Rui Ricardo

Victor Segalen no seu ensaio sobre o exótico assinalava que este último poderia ter origem tanto no intervalo espacial como na diferença temporal. Grande parte dos postais de Rui Ricardo (também disponíveis em formato de poster) - embora não possam ser assimilados à concepção radical do exotismo proposta por Segalen que se reportava a este sentimento como experiência de uma alteridade absoluta - evocam, em todo o caso, a dupla aceção do exotismo dos lugares e dos momentos sugerida pelo poeta francês: desenhando fragmentos de cidades do mundo com o olhar pormenorizado e estranhado do viajante, Rui Ricardo acrescenta ainda às suas ilustrações uma estética vintage que nos faz recuar às imagens dos cartazes de publicidade do início do séc. XX. 





SEGALEN, Victor (1978). Essai sur l’exotisme. Paris: Fata Morgana.

Monday, May 13, 2013

postais Moleskine, marketing do velho e do novo



Os cadernos de notas Moleskine já se tornaram objetos de culto: a editora que recuperou estes cadernos com mais de dois séculos não se esquece de recorrer à narrrativa para nos recordar que estes serviram as anotações e os esboços de pintores e escritores como Vincent van Gogh, Pablo Picasso, Ernest Hemingway, entre outros... Usando a tradição que a liga ao mundo das artes para se promover, a Moleskine não deixa também de utilizar a inovação para seduzir o seu público de aficionados. Os postal notebooks apresentam a forma de um postal mas, quando abertos, escondem no seu interior uma folha em branco, funcionando à semelhança de um envelope. Os notecards são uma espécie de cadernos com duas páginas em branco, acompanhados de envelope. Porque podemos desejar partilhar os nossos rascunhos mais inspirados, de uma nova forma, recorrendo a estes clássicos cadernos e ao tradicional envio postal.  

Monday, April 29, 2013

Naughty little people postcards


Independentemente da sua estatura, não haverá pessoa que esteja isenta das suas perversidades, pequenas maroteiras e outras inconveniências sociais. Se esses 'desvios' do carácter ou do comportamento constituem uma parte integrante da nossa experiência quotidiana, porque não conceder-lhes o benefício do registo visual? Porquê remetê-los para a clandestinidade social? Suponho que uma das razões é que o exemplo constitui um aspecto fundamental da educação. Seja como for, tudo o que ronda ou mesmo ultrapassa os limites do socialmente aceitável vende-se bem, e há quem não se negue ao prazer de fazer o que a maioria evita ou condena. Se uns registam e comercializam imagens sobre esses temas num espaço marginal, outros revelam a capacidade de os abordar de forma mais criativa, construindo um discurso visual mais elaborado, inserido no quadro da produção artística. Ao fazê-lo, reduzem o seu impacto negativo e a sua condição marginal na sociedade. Uma das estratégias possíveis desta abordagem é a encenação e registo de imagens que, supostamente, não se inscrevem na vivência real mas apenas na sua representação a uma escala reduzida, ou mesmo a uma escala real, favorecendo a sua partilha e circulação em contextos sociais mais alargados. Como afirmou Grundberg, a propósito do trabalho de fotógrafos que a praticam, «the figurines used in the work [...] suggest a displacement in the subject’s importance, or at least in the importance of the subject’s being perceived as real»[1]. Esta aproximação foi a utilizada para produzir uma série de imagens reunidas numa publicação recente sob o título de “Naughty little people postcards”[2]. Trata-se de um conjunto de bilhetes postais publicados sob a forma ‘livro’, mas destacáveis e passíveis de uso sob várias formas, incluindo a tradicional correspondência.

A fotografia de encenações escultóricas em miniatura, teve uma grande difusão nos anos 60 do século XIX, sobretudo na edição de imagens estereoscópicas com séries de narrativa temática muito diversa, da política à religião, do acontecimento à narrativa fantástica, com especial destaque para as “diableries”[3]. Foi trabalhada de uma forma singular no período moderno por Man Ray (ca. 1926-1945, 1975-1976) e Fernando Lemos (1949-1952)[4], e tomou novo alento com a difusão do pós-modernismo nos anos 70 e 80 do século XX, com o trabalho de artistas como David Levinthal (1972-2008), Laurie Simmons (1976-2002) e Ellen Brooks (1978-1985), sendo actualmente praticada por vários autores, como Mariel Clayton[5].

Nas imagens publicadas sob o título “Naughty little people postcards”, a estratégia ressurge com uma estética visual actualizada e, sobretudo no caso de Lisa Swerling, com uma abordagem pouco convencional.

Seleccionamos alguns bilhetes postais desta edição, que seguidamente comentaremos de forma abreviada.

Jonah Samson – Hope (© Jonah Samson, cortesia do autor e Laurence King Publishing)



A imagem Hope, de Jonah Samson, mostra-nos como a nossa vida é precária e depende em grande medida dos outros. Não do 'outro' que age de acordo com as normas de conduta socialmente aceites, mas dos que as transgridem. De quem, por algum motivo, explicável ou não, tenha o impulso de destruir. Esperança de sobrevivência é o que resta a quem se encontra na posição de depender do imprevisto, do que se passa na cabeça do homem com quem nos cruzamos quotidianamente.

Jonah Samson – Fucking (© Jonah Samson, cortesia do autor e Laurence King Publishing) 


Em Fucking, Samson provoca-nos com a evidência do acto sexual praticado no espaço público. Se esta imagem não fosse construída com miniaturas, estaria algures entre o registo pornográfico e o voyeurismo fotográfico, ultrapassando a fronteira do que é passível de ser publicamente partilhado. Encenada desta forma, a imagem ganha alguma distância do óbvio e aproxima-se da experiência erótica. Se ambas as imagens são miniaturas encenadas no registo ficcional, o seu impacto reside na sua ambivalência entre narrativa ficcional e representação de uma ocorrência real. Se a situamos num ou noutro pólo, isso depende mais do olhar de quem vê do que do representado.

Lisa Swerling – Smoking kills (© Lisa Swerling, cortesia da autora e Laurence King Publishing)


Em Smoking kills, Lisa Swerling usa a relação entre escala real e escala das miniaturas para abordar a morte como resultado do consumo do tabaco. Literalmente, aqui o que mata não é o consumo, mas o acto físico de apagar o cigarro, como se de um castigo de um ser superior (em tamanho) se tratasse. Além disso, a morte do 'outro' revela o voyeurismo do cidadão comum, que constata e regista uma vez mais que a morte lhe passou ao lado.

Vincent Bousserez – Special skating (© Vincent Bousserez, cortesia do autor e Laurence King Publishing)


Em Special skating, Bousserez cria uma sobreposição oscilatória entre a escala da miniatura e a escala real, que integra por oposição, no plano emocional, os conceitos de sonho e dependência, de ilusão e realidade. Extremos que por vezes se tocam nas vicissitudes do enorme esforço de construção de uma carreira profissional.

Estas duas últimas imagens não se limitam ao registo de uma encenação a uma escala reduzida, mas exploram conscientemente categorias semânticas da relação entre a escala real e a da miniatura numa mesma imagem encenada, integrando a natureza desta representação no próprio acto de concepção.




1. Grundberg, Andy (1999) Crisis of Real: Writings on photography since 1974. Denville, New Jersey: Aperture Foundation, Inc., p. 267.
2. Samson, John; Bousserez, Vincent; Swerling, Lisa; The Rainbowmonkey (2012) Naughty little people postcards. [S.l.]: Laurence King Publishing; Naughty Little People Postcards, [http://www.laurenceking.com/en/naughty-little-people-postcards/, acedido em 18.04.2013].
3. Pellerin, Denis (1995) La photographie stéréoscopique sous le second empire. Paris: Bibliothèque nationale de France, pp. 21-22, 61-62, 64, 75, 82-90; Weynants, Thomas (2003-) ‘Diableries, stereoscopic adventures in hell’, in Early Visual Media, [http://www.visual-media.be/, acedido em 28.04.2013]
4. Ray, Man, et al. (1991 [1.ª ed. 1982]) Man Ray Photographs. 2.ª ed. Londres: Thames & Hudson, pp. 164 [Série ‘Mr and Mrs Woodman’ (1927-1945)], 170-171 [La télévision, 1975; Sans titre, ca. 1927]; Janus (org.) (2000) Man Ray. Lisboa: Instituto Português de Museus, p. 296 [Sem título, 1975]; Man Ray Pro [http://www.manray-photo.com/catalog/index.php?cPath=32&largeur=1280&sort=3a&page=3&osCsid=20af93605d44f26c39cea6bc7f854f3a, acedido em 28.04.2013], [‘Lydia and mannequins ‘ (1932), série ‘Mr and Mrs Woodman’ (1947), ‘Tribute to Sade – Woodman’ (s.d.)]; Lemos, Fernando; Molder, Jorge; Azevedo, Fernando (1994) Fernando Lemos: a sombra da luz. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian - Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, pp. s.n.º [‘Cena humana’ e ‘Nu de ensaio’].
5. Grundberg, Andy; Gauss, Kathleen McCarthy (1987) Photography and art: Interactions since 1946. New York: Abbeville Press, pp. 176-177, 208-209, 219, 227; Levinthal, David; Prince, Richard (2009) Bad Barbie. New York: John McWhinnie & GHB Editions [fotografias de 1972-]; Levinthal, David (2000) XXX. Paris: Galerie Xippas; Ellen Brooks [http://ellenbrooks.net/tableaux-1978%E2%80%931985/, acedido em 28.04.2013], série ‘Tableaux 1978-1985’; Simmons, Laurie; Squiers, Carol (2003) Laurie Simmons: In and around the house: The complete early black and white photographs, 1976-1978. Carolina Nitsch Editions; Simmons, Laurie; Howard, Jan (1997) Laurie Simmons: The Music of Regret. Baltimore Museum of Art; Laurie Simmons [http://www.lauriesimmons.net/, acedido em 28.04.2013]; The photography / Mariel Clayton, [http://www.thephotographymarielclayton.com/, acedido em 28.04.2013]