Thursday, January 2, 2014
Objetos intrigantes, uma crónica de Jorge Palinhos
Nas vésperas de 2014, Jorge Palinhos, cronista do Público, escreve um breve apontamento dedicado aos postais ilustrados, em que não só reflete sobre estes objetos visuais que o fascinam pela mistura de palavras pessoais com imagens reproduzidas, como aí faz referência ao nosso projeto de investigação.
Saturday, September 7, 2013
Retratos
O retrato fotográfico tem tido, desde que apareceu no final
do séc. XIX até aos nossos dias, acompanhados pelas redes sociais e pela partilha instantânea de
imagens, um lugar privilegiado nas práticas artísticas, nas rotinas comerciais
e nas recreações amadoras. Propício ao exercício da mais tradicional expressão
visual e dos mais canónicos padrões estéticos, o retrato fotográfico tem sido
também favorável à experimentação. Na
história do postal ilustrado, cujo papel é fundamental na difusão da fotografia, os retratos a preto e branco e a cores de atores e atrizes tornam-se cedo populares. Se no início do séc. XX são ainda os profissionais do teatro que fazem pose nos postais ilustrados (como lemos aqui), a partir dos
anos 50, são as divas e os ídolos de Hollywood que passam a ser impressos em
grande escala, e com o devido grão fotográfico, nos cartões de pequenas
dimensões.
O retrato de Marilyn Monroe, tirado em 1957 por Richard
Avedon, atualmente em exposição na National Portrait Gallery em Canberra na
Austrália e editado em formato de postal no âmbito da mesma, não é uma imagem comum
e muito menos um clássico postal ilustrado. Nele, a atriz que deu rosto às
intrigas de cineastas como Fritz Lang, Howard Hawks, Billy Wilder e John
Houston, não tem nem o sorriso rasgado nem a pose exuberante a que habituou as
objetivas da sua época. De ombros encolhidos e boca entreaberta, Marilyn, um dos
mais célebres ícones da cultura popular norte-americana, revela-se, no retrato
de Richard Avedon – como, de resto, na sua conhecida biografia – uma estrela sombria.
Este lado escuro da pin-up, que é ofuscado pelos filmes com happyending e pelos postais com pose, não só brilha nesta
mostra de fotografia e nos postais que a publicitam, como parece fixar nela o
reflexo de um imaginário contemporâneo em torno de um certo mal de vivre.
Saturday, August 31, 2013
Neves de agosto
Saraiva, A. (2011) A Guarda em Postal Ilustrado de 1901 a 1970. Guarda: Gabinete de Promoção para a Guarda.
Eram uma meia dúzia de veraneantes na pequena loja
envidraçada onde se improvisava anualmente uma feira do livro. Tinham chegado
ali precipitados pelo calor estonteante de agosto, fugindo aos raios de sol da
tarde, e evitando o cheiro a mar e a incêndio disperso pelo ar. Atravessavam o
pavimento, pisando restos de areia e reconheciam-se ao longe, pelos calções distraídos, pelas t-shirts que deixavam a
descoberto as alças do biquíni, pelos óculos de sol na cabeça e as garrafas de
água na mão. Rodeavam os livros impacientes, folheando daqui e dacolá. Nas
bancas de contraplacado, um grande livro pálido, com uma fotografia a sépia da
cidade da Guarda coberta de neve, chamou a minha atenção. Estaquei bem a meio
do corredor, agarrei desajeitadamente o livro e, com algum vagar então, comecei
a virar as páginas.
Era uma publicação dedicada aos postais ilustrados da Guarda
circulados entre 1901 e 1970, reeditada
recentemente. Os tradicionais temas da cartofilia sucediam-se com a monotonia do tempo que passa e do tempo que faz no catálogo de promoção da cidade da beira interior que
mal conhecia; mas, chegando a meio do livro, uma vintena de páginas era
reservada aos postais fotográficos da Guarda em dias de neve... Os postais da
Guarda com neve, vistos a partir de um agosto tórrido no litoral balnear português,
pareciam provas de existência de uma cidade fantástica, de um povoado feérico, de uma terra de faz de conta: as fachadas dos velhos edifícios rendilhadas pela
espessura branca da neve, os cavalos de madeira de um velho carrossel parados
pelo Inverno gelado, os automóveis antigos com as suas muitas curvas
arredondadas pelo pesado nevão, os portões de ferro bordados pela fina camada
de neve, as árvores e os seus ramos suportando a queda de um grande floco
branco, tudo isto pareciam visões de uma outra
parte, cuja estranheza era agravada pelo agosto e pelos seus reclames de
estâncias balneares, pelas suas fotografias de retiros estivais, pelos seus
postais ilustrados de férias...
Interior do livro A Guarda em Postal Ilustrado de António Saraiva (secção de postais dedicados à neve)
Ocorreu-me então que ainda não tinha escrito nenhum postal
nesse Verão, e que, se o fizesse, em vez da clássica fotografia do farol, do
barco, do areal ou do mar, preferiria garatujar nas costas de um desses irreais postais fotográficos da
Guarda coberta de neve, como quem quisesse reinventar o agosto.
Wednesday, August 7, 2013
A terra treme
'A terra treme', título de um filme realizado nos anos 40 pelo italiano Luchiano Visconti, poderia também ser hoje uma legenda descritiva para o recente projeto do nova-iorquino Clement Valla. Na era dos media digitais, o artista norte-americano não recorreu ao cinema, meio de comunicação contemporâneo do postal ilustrado, para respigar, colecionar e montar imagens das dobras, curvas e trepidações do mundo. Com 'Postcards from Google Earth', Valla declara ter descoberto nos ambientes tridimensionais e nas imagens de satélite momentos de fragmentação, em que a familiar e harmoniosa superfície da terra aparece repentinamente desconhecida e inquietante. Nas suas próprias palavras, tratam-se de postais digitais de "estranhos momentos em que a ilusão da representação de uma superfície terrestre contínua e sem costuras parece desfazer-se". Mais informações sobre Postcards from Google Earth aqui.
Thursday, June 13, 2013
Novos postais de Viana do Castelo
A Objectos Misturados dedica-se a criar peças únicas feitas manualmente. Recentemente desafiou 3 designers de Viana do Castelo a desenvolver uma ilustração para uma coleção de postais, cujo tema fosse a cidade de Viana do Castelo. O resultado é este...
Thursday, May 23, 2013
Os exóticos postais de Rui Ricardo
Victor Segalen no seu ensaio sobre o exótico assinalava que este último poderia ter origem tanto no intervalo espacial como na diferença temporal. Grande parte dos postais de Rui Ricardo (também disponíveis em formato de poster) - embora não possam ser assimilados à concepção radical do exotismo proposta por Segalen que se reportava a este sentimento como experiência de uma alteridade absoluta - evocam, em todo o caso, a dupla aceção do exotismo dos lugares e dos momentos sugerida pelo poeta francês: desenhando fragmentos de cidades do mundo com o olhar pormenorizado e estranhado do viajante, Rui Ricardo acrescenta ainda às suas ilustrações uma estética vintage que nos faz recuar às imagens dos cartazes de publicidade do início do séc. XX.
SEGALEN, Victor (1978). Essai sur l’exotisme. Paris: Fata Morgana.
Monday, May 13, 2013
postais Moleskine, marketing do velho e do novo
Os cadernos de notas Moleskine já se tornaram objetos de culto: a editora que recuperou estes cadernos com mais de dois séculos não se esquece de recorrer à narrrativa para nos recordar que estes serviram as anotações e os esboços de pintores e escritores como Vincent van Gogh, Pablo Picasso, Ernest Hemingway, entre outros... Usando a tradição que a liga ao mundo das artes para se promover, a Moleskine não deixa também de utilizar a inovação para seduzir o seu público de aficionados. Os postal notebooks apresentam a forma de um postal mas, quando abertos, escondem no seu interior uma folha em branco, funcionando à semelhança de um envelope. Os notecards são uma espécie de cadernos com duas páginas em branco, acompanhados de envelope. Porque podemos desejar partilhar os nossos rascunhos mais inspirados, de uma nova forma, recorrendo a estes clássicos cadernos e ao tradicional envio postal.
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