Tuesday, April 8, 2014

Futurografias





No final do séc. XIX, os postais ilustrados com projeções das cidades do futuro eram um género visual popular. Objetos vernaculares onde se ensaiaram as primeiras fotomontagens de acordo com Dawn Ades, os postais da viragem do século dirigiam o nosso olhar, com a nitidez do grão fotográfico, para o horizonte de metrópoles futuras, onde pouco mais se distinguia para além de uma densa multidão atropelada por arranha-céus e pelos meios de transporte mais extravagantes. (Mais exemplos de "futurografias" podem ser consultados aqui)

Referências:
Ades, D. (1986). Photomontage. Londres: Thames & Hudson.

Monday, February 24, 2014

Sapatinhos de postal


Poder-se-ia procurar uma explicação razoável para a afinidade congénita entre o postal ilustrado e o sapato: afinal de contas, os mais genuínos viajantes, que arredam caminho, calcorreiam ruas e palmilham estradas, são também remetentes destas missivas que tantas vezes mostram as vistas de cidades distantes. Mas as coincidências que unem a história destes dois objetos parecem mais pertencer à sucessão misteriosa dos acasos do que ao mundo das justificações lógicas.


Grande parte dos colecionadores e ajuntadores de postais usa as caixas de sapatos para acumular os mais velhos e os mais novos cartões de mensagens, estejam estes manuscritos, estejam estes em branco. O hábito já é tão conhecido que no postal que publicita uma caixa destinada à “arrumação racional de postais ilustrados”, à venda num mercado de antiguidades na Rue des Martyrs em Paris, a dupla de cartófilos franceses responsável pela invenção se regozija pela novidade que acabará com o enfadonho ritual de guardar postais em caixas de sapatos. Certo é que esta caixa, espécie de gadget que se viria a revelar demasiado pesada e, por isso, um fracasso, segundo testemunha o comerciante de postais antigos, não “chegaria aos pés” da sua popular rival.


E se nas caixas de sapatos gratuitas cabem postais de todo o tipo, também nos postais gratuitos cabem muitos sapatos. Já é sabido que muitas marcas de sapatos usam o formato do postal para publicitar as suas coleções: os freecards, postais gratuitos distribuídos em stands próprios numa rede de espaços públicos, cujo público-alvo é maioritariamente jovem, são um criativo suporte das campanhas publicitárias de marcas de calçado urbano e desportivo.

Mas, mais do que isso, os postais tornaram-se recentemente o material de decoração e o veículo de promoção da cadeia de lojas de sapatos Camper. Martí Guixé, designer espanhol, tem desde o ano passado atravessado o globo para modificar as montras e o interior dos pontos de venda de calçado Camper de todo o mundo – Bruxelas, Paris, Copenhaga, Chicago, Istambul, Singapura... As Camper Postcard Shops já são um fenómeno de popularidade mundial: a ideia é que quem compre um par dos vistosos sapatos da marca espanhola tenha também direito a escolher, escrever e enviar um postal, no interior da própria loja.


Finalmente, também na história de arte, o sapato tem, pelo menos, desde Van Gogh, um lugar privilegiado, no qual o postal não está ausente... Não fosse um dos mais populares gestos da mail art  ou arte postal, a obra concetual 100 boots de Eleanor Antin (1971–73). Esta última consistiu na viagem de 50 pares de botas por vários lugares do mundo, no seu registo fotográfico, na impressão das fotografias em formato de postal e no envio destas a artistas, críticos de arte, curadores e escritores.


Ainda no que às artes diz respeito, se na história do cinema, Charlot tornaria célebre o gesto de degustar um sapato, na história da fotografia, são outros os episódios que pairam no imaginário coletivo. No dealbar do séc.XX, um homem atravessa as ruas de Paris, ainda vazias, nas primeiras horas da manhã, com uma rudimentar máquina fotográfica e eterniza as montras dos comerciantes de bairros pobres. Entre muitas outras vistas, fixa com a sua objetiva por volta de 1910 uma prateleira de sapatos do Marché de Carmes na Place Maubert em Paris. O seu nome é Eugène Atget, vive pobremente das fotografias que vende a comerciantes, editores de postais da época, ou ainda, como no final da vida, aos Arquivos Nacionais franceses. Além de objetos de culto dos surrealistas, que tanto apreciavam os acasos objetivos e as afinidades inusitadas, as suas fotografias depressa se transformariam em ícones da cidade de Paris, vendidos em formato de postal a muitos dos viajantes de passagem pela capital francesa. 


Referências

Freund, G. (1974). Photographie et Société. Paris: Éditions du Seuil.
Held Jr, J. (1991). Mail art: an annotated bibliography. Londres: Scarecrow Press.

Tuesday, February 11, 2014

Happy Birthday, I love you...: do postal ao mural


Seja com nostalgia, seja com desdém, tornou-se um lugar comum afirmar que já ninguém escreve postais: postais de férias, postais de Natal, postais de aniversário, postais de S. Valentim. Á medida que as palavras em papel escasseiam, sucedem-se os votos de feliz aniversário e as declarações de amor nos ecrãs: estes são hoje mensagens de todos os dias, ou mesmo de todos os segundos, sobretudo nas redes sociais. Assim o representa o primeiro e-card aqui reproduzido, postal eletrónico da Someecards, um dos mais populares serviços gratuitos de oferta de postais virtuais criado recentemente pelos britânicos Brook Lundy and Duncan Mitchell. 


Estes postais, virtuais ou reais, têm representado, com um humor mordaz, o que poderia ser descrito como os sintomas psicopatológicos de uma sociedade em rede. Se no seu aniversário, haverá quem fique com transtornos de ansiedade e ataques de pânico perante o bombardeamento de notificações do Facebook, no dia de S. Valentim haverá, imaginam os britânicos, quem tenha surtos de voyeurismo e não consiga largar a página do Facebook do seu ex-namorado. O lugar é mais uma vez comum, mas é mesmo verdade: mudam-se os tempos, mudam-se os postais. 

Monday, January 13, 2014

'Aventando' postais da II Guerra Mundial / 'Winding' postcards from the 2nd World War

Um dos autores do blogue Aventar conta que há uns anos descobriu na casa dos avós uma coleção de suportes de propaganda da II Guerra Mundial, nomeadamente postais. Na dificuldade de encontrar um arquivo oficial rigoroso destes materiais (nem a Biblioteca Nacional tem um registo fidedigno de tudo o que se editou em suporte postal, apesar do pressuposto do Depósito Legal Obrigatório), as coleções pessoais e particulares constituem uma riqueza extraordinária. Mário Reis promete ir 'postando' algumas digitalizações do acervo da família.
Fonte / Source: Aventar

At Aventar  we are told that one of this blog's authors found a collection of propaganda from the 2nd World War at his grandparents' house a few years ago. Taking into account how difficult it is to find a rigorous official archive of these materials (not even the National Library has a reliable register of everything what was edited in the form of postcard, though the principle of the Obligatory Legal Deposit), personal and private collections constitute an extraordinary richness. Mário Reis promises to post some scannings of his family heritage.

Thursday, January 2, 2014

Objetos intrigantes, uma crónica de Jorge Palinhos

Nas vésperas de 2014, Jorge Palinhos, cronista do Público, escreve um breve apontamento dedicado aos postais ilustrados, em que não só reflete sobre estes objetos visuais que o fascinam pela mistura de palavras pessoais com imagens reproduzidas, como aí faz referência ao nosso projeto de investigação.

Saturday, September 7, 2013

Retratos



O retrato fotográfico tem tido, desde que apareceu no final do séc. XIX até aos nossos dias, acompanhados pelas redes sociais e pela partilha instantânea de imagens, um lugar privilegiado nas práticas artísticas, nas rotinas comerciais e nas recreações amadoras. Propício ao exercício da mais tradicional expressão visual e dos mais canónicos padrões estéticos, o retrato fotográfico tem sido também favorável à experimentação.  Na história do postal ilustrado, cujo papel é fundamental na difusão da fotografia, os retratos a preto e branco e a cores de atores e atrizes tornam-se cedo populares. Se no início do séc. XX são ainda os profissionais do teatro que fazem pose nos postais ilustrados (como lemos aqui), a partir dos anos 50, são as divas e os ídolos de Hollywood que passam a ser impressos em grande escala, e com o devido grão fotográfico, nos cartões de pequenas dimensões.

O retrato de Marilyn Monroe, tirado em 1957 por Richard Avedon, atualmente em exposição na National Portrait Gallery em Canberra na Austrália e editado em formato de postal no âmbito da mesma, não é uma imagem comum e muito menos um clássico postal ilustrado. Nele, a atriz que deu rosto às intrigas de cineastas como Fritz Lang, Howard Hawks, Billy Wilder e John Houston, não tem nem o sorriso rasgado nem a pose exuberante a que habituou as objetivas da sua época. De ombros encolhidos e boca entreaberta, Marilyn, um dos mais célebres ícones da cultura popular norte-americana, revela-se, no retrato de Richard Avedon – como, de resto, na sua conhecida biografia – uma estrela sombria. Este lado escuro da pin-up, que é ofuscado pelos filmes com happyending e pelos postais com pose, não só brilha nesta mostra de fotografia e nos postais que a publicitam, como parece fixar nela o reflexo de um imaginário contemporâneo em torno de um certo mal de vivre.