Tuesday, March 10, 2015

Do Post ao Postal, já disponível!

O livro Do Post ao Postal, organizado por Moisés de Lemos Martins e Maria da Luz Correia, já está disponível, com chancela da Humus. A edição é composta por sete ensaios dos membros da equipa do projeto de investigação O Postal Ilustrado: para uma sócio-semiótica da imagem e do imaginário, todos eles redigidos a partir das notas publicadas neste blogue, mas versando temas diferentes: Moisés de Lemos Martins narra o percurso da equipa e descreve o domínio científico dos postcard studies, Maria da Luz Correia reflete sobre a pertença fotográfica do postal ilustrado e a sua vocação lúdica, Helena Pires discorre sobre o postal enquanto forma de representação da paisagem, Miguel Bandeira problematiza a dimensão pública e privada deste meio de comunicação, Madalena Oliveira  revê o papel deste objeto de culto das indústrias de sedução e, finalmente, Albertino Gonçalves discorre sobre as diversas materialidades e excêntricas texturas de que se tem revestido o suporte. O manual impresso de uma centena de páginas é ainda acompanhado por um CD com a versão digital do livro e uma seleção dos posts publicados, entre 2008 e 2013, pelos inúmeros colaboradores do blogue Postais Ilustrados: além dos posts dos autores do livro Moisés de Lemos Martins, Maria da Luz Correia, Madalena Oliveira, Albertino Gonçalves, e Miguel Bandeira, há ainda notas publicadas por Aline Soares Lima, Catarina Miranda, Marlene Pereira e Nuno Borges Araújo. 

Tuesday, November 18, 2014

O mar está bravo em Brighton

Uma série de postais de Brighton com vistas fotográficas coloridas caraterísticas do início do séc. XX e com um lettering irónico mais consentâneo com o séc. XXI foi publicada há uns dias, sob o título Pick me up Postcards, em diversas páginas de design gráfico e ilustração. O seu ilustrador é o inglês Steven Wilson, que através destes remendos gráficos, nos convida a viajar no espaço e no tempo, a bordo dos seus postais ilustrados. Diga-se que a viagem no tempo não se confina ao tempo que passa, mas atinge também o tempo que faz, o clima, que não é propriamente ameno em Brighton, como se sugere na reprodução do céu cinzento e do mar revolto. Se a iconografia do postal português descreve frequentemente o nosso país como um "jardim à beira-mar plantado", na insular Inglaterra, o mar bravo tornou-se uma representação visual canonicamente associada ao postal ilustrado... A artista plástica Susan Hiller já tinha nos anos 70 recriado as ondas revoltas repetitivamente impressas nos cartões epistolares, ilustrados por fotógrafos anónimos, na instalação Dedicated to the Unkown Artists.

 Pick me up Postcards, Steven Wilson, 2014
Dedicated to the Unknown Artists, Susan Hiller, c.a. 1970

Tuesday, November 11, 2014

Braga na Grande Guerra

Cartaz da Exposição Braga na Grande Guerra: uma memória do Arquivo Aliança (1914-1918)


Até sábado, 22 de novembro de 2014, no átrio da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, uma exposição que revela alguns episódios registados pela Fotografia Aliança que tiveram lugar na cidade de Braga, no período da Grande Guerra.


A exposição dá a conhecer imagens inéditas do período, acompanhadas do registo gráfico realizado, à época, pela imprensa local. 
Compõe esta "memória", realizada a partir de espécimes fotográficos de antigo estúdio fotográfico de Braga em depósito no Museu da Imagem (Câmara Municipal de Braga), para além dos "episódios históricos", uma galeria de retratos de soldados.

Uma das ideias por trás desta mostra é a partilha de memórias associadas ao período - por isso se solicita aos visitantes da exposição que tragam até à Biblioteca cartas, fotografias ou postais com referência à participação de Portugal na primeira Guerra Mundial.

Saturday, September 20, 2014

Retratos da Brasilidade

Enviado gratuitamente da Câmara dos Deputados de Brasília no dia 29 de agosto. Chegou ontem, dia 19 de setembro, a Portugal. A iniciativa é um convite aos visitantes da Câmara dos Deputados e do Senado para 'postagem gratuita' para qualquer destino do mundo. Uma forma de dizer 'Eu estive lá'...

Sent for free from the Brazilian Parliament on August, 29. It arrived to Portugal yesterday, September, 19. An invitation for the visitors to the Parliament to 'free post' to no matter what address in the world. A way of saying 'I was there'...

Wednesday, July 23, 2014

Na volta do Correio

É pelo menos desde os anos 80 com Malek Alloula e o seu Le Harem Colonial, onde o autor analisa as representações da mulher argelina nos postais ilustrados, que o estudo deste meio de comunicação tem estado ligado às figurações colonialistas do império. Este grupo de investigação tem ensaiado caminhos na revisão das relações entre o postal ilustrado e a lusofonia salazarista. Juntando as visões públicas às memórias privadas na era do buzz, dos posts e dos feeds, o postal ilustrado tem-se associado nos últimos anos à imprensa tradicional como objeto no qual subsiste o apelo da materialidade. E na contemporaneidade, a nostalgia das coisas não resiste a juntar-se ao saudosimo das terras.  Desde abril que na compra do diário português Correio da Manhã, se podem recolher cópias de velhos bilhetes postais sob o mote 'Memórias de Portugal e Ex-colónias'. Mais informações: Postais ilustrados do Portugal do século XX no Correio da Manhã, Meios e Publicidade

Referências:
Alloula, M. (2001). Le Harem Colonial: images d'un sous-erotisme. Paris: Séguier.

Tuesday, April 8, 2014

Futurografias





No final do séc. XIX, os postais ilustrados com projeções das cidades do futuro eram um género visual popular. Objetos vernaculares onde se ensaiaram as primeiras fotomontagens de acordo com Dawn Ades, os postais da viragem do século dirigiam o nosso olhar, com a nitidez do grão fotográfico, para o horizonte de metrópoles futuras, onde pouco mais se distinguia para além de uma densa multidão atropelada por arranha-céus e pelos meios de transporte mais extravagantes. (Mais exemplos de "futurografias" podem ser consultados aqui)

Referências:
Ades, D. (1986). Photomontage. Londres: Thames & Hudson.

Monday, February 24, 2014

Sapatinhos de postal


Poder-se-ia procurar uma explicação razoável para a afinidade congénita entre o postal ilustrado e o sapato: afinal de contas, os mais genuínos viajantes, que arredam caminho, calcorreiam ruas e palmilham estradas, são também remetentes destas missivas que tantas vezes mostram as vistas de cidades distantes. Mas as coincidências que unem a história destes dois objetos parecem mais pertencer à sucessão misteriosa dos acasos do que ao mundo das justificações lógicas.


Grande parte dos colecionadores e ajuntadores de postais usa as caixas de sapatos para acumular os mais velhos e os mais novos cartões de mensagens, estejam estes manuscritos, estejam estes em branco. O hábito já é tão conhecido que no postal que publicita uma caixa destinada à “arrumação racional de postais ilustrados”, à venda num mercado de antiguidades na Rue des Martyrs em Paris, a dupla de cartófilos franceses responsável pela invenção se regozija pela novidade que acabará com o enfadonho ritual de guardar postais em caixas de sapatos. Certo é que esta caixa, espécie de gadget que se viria a revelar demasiado pesada e, por isso, um fracasso, segundo testemunha o comerciante de postais antigos, não “chegaria aos pés” da sua popular rival.


E se nas caixas de sapatos gratuitas cabem postais de todo o tipo, também nos postais gratuitos cabem muitos sapatos. Já é sabido que muitas marcas de sapatos usam o formato do postal para publicitar as suas coleções: os freecards, postais gratuitos distribuídos em stands próprios numa rede de espaços públicos, cujo público-alvo é maioritariamente jovem, são um criativo suporte das campanhas publicitárias de marcas de calçado urbano e desportivo.

Mas, mais do que isso, os postais tornaram-se recentemente o material de decoração e o veículo de promoção da cadeia de lojas de sapatos Camper. Martí Guixé, designer espanhol, tem desde o ano passado atravessado o globo para modificar as montras e o interior dos pontos de venda de calçado Camper de todo o mundo – Bruxelas, Paris, Copenhaga, Chicago, Istambul, Singapura... As Camper Postcard Shops já são um fenómeno de popularidade mundial: a ideia é que quem compre um par dos vistosos sapatos da marca espanhola tenha também direito a escolher, escrever e enviar um postal, no interior da própria loja.


Finalmente, também na história de arte, o sapato tem, pelo menos, desde Van Gogh, um lugar privilegiado, no qual o postal não está ausente... Não fosse um dos mais populares gestos da mail art  ou arte postal, a obra concetual 100 boots de Eleanor Antin (1971–73). Esta última consistiu na viagem de 50 pares de botas por vários lugares do mundo, no seu registo fotográfico, na impressão das fotografias em formato de postal e no envio destas a artistas, críticos de arte, curadores e escritores.


Ainda no que às artes diz respeito, se na história do cinema, Charlot tornaria célebre o gesto de degustar um sapato, na história da fotografia, são outros os episódios que pairam no imaginário coletivo. No dealbar do séc.XX, um homem atravessa as ruas de Paris, ainda vazias, nas primeiras horas da manhã, com uma rudimentar máquina fotográfica e eterniza as montras dos comerciantes de bairros pobres. Entre muitas outras vistas, fixa com a sua objetiva por volta de 1910 uma prateleira de sapatos do Marché de Carmes na Place Maubert em Paris. O seu nome é Eugène Atget, vive pobremente das fotografias que vende a comerciantes, editores de postais da época, ou ainda, como no final da vida, aos Arquivos Nacionais franceses. Além de objetos de culto dos surrealistas, que tanto apreciavam os acasos objetivos e as afinidades inusitadas, as suas fotografias depressa se transformariam em ícones da cidade de Paris, vendidos em formato de postal a muitos dos viajantes de passagem pela capital francesa. 


Referências

Freund, G. (1974). Photographie et Société. Paris: Éditions du Seuil.
Held Jr, J. (1991). Mail art: an annotated bibliography. Londres: Scarecrow Press.