Tuesday, August 26, 2008

Marie-Antoinette no cruzamento do DVD/vídeo com o postal ilustrado

O postal ilustrado impõe-se assim, definitivamente, para além da instrumentalidade do cânone. Isto é, para lá da função que justificou a sua génese postal, a reprodutibilidade do formato e do suporte permanece, relança-se e também obtém novos figurados. Por isso é inevitável (ainda para mais debaixo do prisma obsessivo da investigação) que estejamos constantemente a “tropeçar” nos mais diversos tipos de edições “postais”.

Embora o apelo de uma nova natureza digital auspicie a transformação radical e irreversível do postal ilustrado nos moldes com que até agora o convencionamos, reconhecível no formato e na finalidade comunicacional que, espera-se, há-de preservar, o postal ilustrado cartonado, qual arcaísmo dos nossos tempos, subsiste surpreendendo-nos nos contextos menos esperados.

É o caso da edição especial em DVD/vídeo do filme “Marie Antoinette” (Columbia Pictures, 2006) da realizadora Sofia Coppola, no caso também a guionista, que “inclui 6 POSTAIS EXCLUSIVOS do filme”, a completar a capa com a imagem coquette de Kirsten Dunst, a protagonista que assume o papel da célebre rainha de França, Maria-Antonieta (1755-1793) tragicamente guilhotinada durante a revolução francesa (1789-1799).



Neste particular apontamento o postal ilustrado desvia-se dos expectantes itinerários da correspondência epistolar, até porque o verso dos espécimes é cego, não convidando à escrita ou ao expediente do correio, funcionando assim a modos de um brinde promocional - “inclui 6 POSTAIS EXCLUSIVOS do filme” - da venda do DVD, como se de uma série de mini-posters se tratasse.

De facto, não passa despercebida a coincidência do formato da embalagem do dito suporte DVD (19x14cm) e o formato médio do postal tradicional. Na verdade desconhecemos se este recurso de marketing já tivesse sido antes usado. Todavia, não deixa de ser curiosa a semelhança da dimensão da embalagem padrão da generalidade dos suportes multimédia mais comuns e, particularmente, de toda a gama de imagens tipo que ilustram as suas capas, com a longa tradição imagética/formal que nos tem sido veiculado pelo postal ilustrado. Fica aqui o apontamento.





Sunday, August 17, 2008

Exposição de postais ilustrados em Londres


Decorre de 28 a 30 de Agosto mais uma edição do Picture Postcard Show, em Londres. A exposição, conhecida como uma das mais prestigiadas no mundo, vai exibir exemplares desde o final do século XIX até postais mais recentes dos últimos vinte anos. O evento, lê-se no anúncio promocional, «é uma oportunidade maravilhosa para os visitantes verem (e talvez comprarem!) alguns dos melhores postais disponíveis hoje. Muitos deles interessarão os 'historiadores de família', que encontrarão nos postais cenas de ruas, igrejas e acontecimentos locais que podem por vezes ser usados para ilustrar as suas árvores de família.»

Thursday, August 7, 2008

Quando a janela é postal

Há coisas que nasceram para emparceirar. Assim, a Janela do Convento de Cristo em Tomar e o postal ilustrado. A forma e o conteúdo de mãos dadas. Uma fotografia desta janela foi, precisamente, a “arma de guerra” desencantada por Eugenio d’Ors na célebre “querela do barroco” das Décadas de Pontigny de 1931. Arrisquemos traduzir, com alguma liberdade, dois ou três excertos do relato dessa experiência:

Quando apresentei, em Pontigny, a imagem da admirável Janela de Tomar, um sobressalto de admiração percorreu todos os presentes: em alguns deve ter despoletado uma verdadeira crise intelectual (…).
A arquitectura barroca – chegou-se a consenso – distingue-se sempre por três signos: antes de mais, o
dinamismo, que substitui as harmonias do repouso pelas intensidades da agitação e (…) “as formas que pesam” pelas “formas que voam”; em seguida, a profundidade, que cava os relevos, molda as sombras e parece dotar as estruturas arquitectónicas com uma nova dimensão; por último, o sentido pictórico, que introduz na arquitectura os elementos cromáticos, incluindo os elementos líricos que jogam com a luz os mais variados jogos da fantasia, a dispersam, a fazem vibrar e cantar.
Estabelecidas estas premissas, a visão da nossa janela estava votada a produzir um efeito fulminante. Onde se pode ver mais terrivelmente – diria até mais loucamente – do que aqui as formas a agitar-se, os relevos cavar-se, a luz cantar? Em que obra de arte do mundo inteiro, o dinamismo, a profundidade, o lirismo irrompem [s’éclatent] de um modo tão manifesto, para o maior deleite ou o pior escândalo. Nesse dia, à noite, após a apresentação da imagem, a boa causa contava, em Pontigny, com um bom lote de convertidos: doravante, a batalha estava ganha.

Quão bem escreve este espanhol tomado de lusitana paixão! Permito-me transcrever mais algumas linhas. Se calhar, não é pecado.

No que me diz respeito, vi sempre, nesta janela, um dos símbolos essenciais da mensagem lusitana no mundo. Constitui, a seu modo, um poema épico, um emblema colectivo total, à semelhança, porventura, da epopeia de Camões,
Os Lusíadas. Existe um terceiro epos na arte pictural representado, este, pelo Políptico de Nuno Gonçalves. E, tal como em Pontigny ninguém hesitou em reconhecer a Janela de Tomar como obra transcendental, também o significado deste Políptico foi prontamente captado em Paris, aquando da exposição de “Arte Portuguesa”: outra revelação, outra vitória.
O público, apenas entrava nas salas do museu das Tuileries, logo se dirigia para o fundo, como se tivesse adivinhado uma presença solene. Sentia imediatamente a revelação da importância desta obra ao deparar-se com um mundo completo, com um dos monumentos fundamentais da cultura. Uma atmosfera singular envolve esta obra; desprende-se uma espécie de mistério que não provém nem do tema nem dos múltiplos enigmas iconográficos ou arqueológicos que a sua composição encerra. Está banhada – assim parece – por uma luz verde, luz fria onde se lê uma profunda
saudade.
(D’Ors, Eugenio, Du Baroque, Paris, Gallimard, 1935, pp. 142-144).
.


Pavilhão de Portugal na Exposição Colonial Internacional de Paris, 1931

No mesmo ano, 1931, em que Eugenio d’Ors proferiu esta conferência em Pontigny, decorreu, de Maio a Novembro, em Vincennes, a Exposição Colonial Internacional de Paris, com a presença de um Pavilhão de Portugal, com projecto de Raul Lino (ver postal ilustrado).

Tuesday, August 5, 2008

Lembranças



Postais 1 e 2

Neto de comerciante, foi-me dado assistir à morosa hesitação da escolha dos postais ilustrados. Não deixa de constituir tarefa azada, quase um milagre, conseguir acomodar, num rectângulo tão exíguo, emissor, destinatário, pretexto, mensagem e imagem. Lembro-me, também, da recepção de alguns postais. Ao estremecimento e à comunhão iniciais, com o postal a passar de mão em mão, sucedia-se a exposição num “altar improvisado” e o recolhimento numa gaveta, caixa ou álbum destinado às relíquias memoráveis. Quase todos nós, apesar dos anos e das mudanças, preservamos alguns destes tesouros semiprivados. Compõem uma espécie de bálsamo para a nossa identidade.


Postal 3


Os postais ilustrados comportam uma vertente estética. Podem ainda apresentar uma aura de magia, risco, aliás, próprio de um objecto que se interpõe entre duas pessoas. Absorvem o emissor que neles se inscreve (“estou aqui!”) e convocam o destinatário que neles se adivinha (“Esta menina és tu a pedir à Nª Sª pª vires passar as férias a casa”: postal 1). Podem, inclusivamente, aspirar a uma certa tangibilidade das almas ou, se se preferir, a um magnetismo dos corpos separados: “Se o pensamento fosse visível, ver-me-hias sempre ao teu lado” (postal 2). Muitos postais ilustrados são dádivas. Antes de mais, dádivas de si. São lembranças, “something between a message and a present( Andrew Martin: http://blogs.guardian.co.uk/travelog/2008/07/postcards_back_from_the_edge.html).


Postal 4

São prendas! Apreciadas, exibidas e guardadas. Pessoalizadas em sintonia com o outro, pedem criatividade, dedicação e sentido de oportunidade. Confesso nutrir alguma predilecção pelos postais ilustrados anteriores a 1902, aqueles em que “de um lado só se escreve a direcção”. Reduzem o importante ao essencial. E o essencial, como bem sabemos, cabe no buraco de uma agulha. As soluções, variadas, oscilam entre a incontinência de letras que afoga a imagem e o gesto discreto e precioso que lhe acrescenta valor. Mesmo com a possibilidade de escrita no reverso do postal, as marcas e as inscrições na imagem perduraram, como uma espécie de luxo ou de requinte pessoal (atente-se no postal 3 e, sobretudo, no pormenor do postal 4: estes postais podem ser vistos no blogue Postais Antigos: http://postais.do.sapo.pt/). É certo que, na maioria dos casos, estas prendas são surpresas esperadas, ao sabor das efemérides ou das viagens. Se tardam, sente-se a falta, num misto de frustração e inquietação.


Friday, August 1, 2008

Os postais em Agosto, por Vila-Matas

É uma Breve antologia de postais desesperados, crónica do escritor catalão Enrique Vila-Matas incluída na compilação Da Cidade Nervosa , editada pela Campo das Letras em 2006. Mas não se pense que este 'desespero postal' escapa ao humor e à ironia com que Vila-Matas costuma narrar todas as espécies de desesperos. Deixamos aqui a crónica quase na íntegra, em época de férias, em época de viagens e em época de postais, não fossem eles uma cor fundamental do «caleidoscópio ilusório do turismo», segundo a expressão de Marc Augé.

Quero pensar que a vaga de bilhetes postais que estes dias tem chegado a minha casa é consequência directa do aborrecimento que provoquei entre os meus amigos em fins de Junho, quando me deu para exaltar com todo o género de refinados e mesmo, ás vezes, irrebatíveis argumentos, as vantagens e satisfações que tem passar o Verão inteiro em Barcelona. Todos tinham o seu bilhete de avião e as suas reservas de hotel já feitas e pagas, todos cantavam as excelências paradisíacas dos remotos países a que iam deslocar-se, todos se sentiam ofendidos quando lhes falei das doenças e outros incómodos esperando-os nesses países que eu – disse-lhes, mentindo ás vezes – já tinha visitado e sabia que não só não valiam a pena, mas que no Verão se transformavam no próprio inferno. Junte-se a isto que todos sabem que sou um fanático coleccionador de postais e compreender-se-á que decidissem vingar-se, de forma massiva, neste Verão, e me tenham bombardeado com os seus febris textos enviados das suas remotas paisagens (…).
É sabido que se escrevem postais para provocar inveja aos amigos, mas a minha teoria é que, no fundo, os que estou a receber este Verão me são enviados pela simples razão de que sou invejado. Por isso me escrevem, porque estão desesperados e se lembram de Barcelona sob o mosquiteiro do arraial, e então lembram-se de mim e de quanta razão tinha ao enumerar-lhes as excelências de um bom sistema de refrigeração caseiro.
Fazem-me pena, mas não estou disposto a perdoar-lhes a agressividade, o mau gosto ou a mal dissimulada inveja que destilavam as suas mensagens de náufragos desesperados. Por isso, decidi vingar-me deles publicando uma breve antologia dos seus envenenados textos. (…) Perguntava o inefável Jean Paul Sartre para que serve a literatura. Pois bem, vou responder-lhe: serve para muitas coisas, entre elas, para nos vingarmos no Verão dos amigos que nos invejam e nos mandam as suas nada invejáveis vistas de amanheceres em países zulus ou de entardeceres em casas de pardos países civilizados.
Na minha antologia de postais há de tudo. Estão os que tratam de provocar inveja e ainda por cima o dizem: “Dos Portais de Veracruz, brindando com benjuim para que morras de inveja. Abraços”. Estão os que mandam um insulto simpático: “Pensamos muito em ti, aqui em Cuba, sobretudo quando estamos rodeados de guacamayos, que são aves tropicais pertencentes à família dos papagaios. Beijos” Há os que enviam um mal dissimulado ataque a uma das tuas cidades favoritas: “Ter-te-ia encantado a Baía. È parecida com Lisboa mas sem a maldita saudade. Aqui vive-se para gozar, não para penar. Um besinho”. (…) E há os que tratam de informar que aprenderam francês: “On est descendu au Negresco. Temps sublime. Tout est parfait. Mon rhume est guéri. On revient le 17.”. (…) Os piores são os que nos chamam loucos: “Por este corredor de Tühingen deambulava o pobre Hölderlin quando perdeu – dizem – a razão. De modo que já podes pensar na possibilidade de te mudares para uma casa com corredor. Abraços mil.”. Disse mal, os piores não são os que nos tratam como loucos, os piores são os que em países longínquos se tornam escritores: “O fumo sonâmbulo chama-me num céu estranho enquanto decai a luz e a chuva retesa o seu arco para a casa de Musrafá, nosso guia”.
Está claro que o Verão não é a estação ideal para ler os amigos, pois os que te querem bem fazem-te chorar em Agosto. Quem sabe, talvez os postais fossem inventados para isso.