Monday, April 29, 2013

Naughty little people postcards


Independentemente da sua estatura, não haverá pessoa que esteja isenta das suas perversidades, pequenas maroteiras e outras inconveniências sociais. Se esses 'desvios' do carácter ou do comportamento constituem uma parte integrante da nossa experiência quotidiana, porque não conceder-lhes o benefício do registo visual? Porquê remetê-los para a clandestinidade social? Suponho que uma das razões é que o exemplo constitui um aspecto fundamental da educação. Seja como for, tudo o que ronda ou mesmo ultrapassa os limites do socialmente aceitável vende-se bem, e há quem não se negue ao prazer de fazer o que a maioria evita ou condena. Se uns registam e comercializam imagens sobre esses temas num espaço marginal, outros revelam a capacidade de os abordar de forma mais criativa, construindo um discurso visual mais elaborado, inserido no quadro da produção artística. Ao fazê-lo, reduzem o seu impacto negativo e a sua condição marginal na sociedade. Uma das estratégias possíveis desta abordagem é a encenação e registo de imagens que, supostamente, não se inscrevem na vivência real mas apenas na sua representação a uma escala reduzida, ou mesmo a uma escala real, favorecendo a sua partilha e circulação em contextos sociais mais alargados. Como afirmou Grundberg, a propósito do trabalho de fotógrafos que a praticam, «the figurines used in the work [...] suggest a displacement in the subject’s importance, or at least in the importance of the subject’s being perceived as real»[1]. Esta aproximação foi a utilizada para produzir uma série de imagens reunidas numa publicação recente sob o título de “Naughty little people postcards”[2]. Trata-se de um conjunto de bilhetes postais publicados sob a forma ‘livro’, mas destacáveis e passíveis de uso sob várias formas, incluindo a tradicional correspondência.

A fotografia de encenações escultóricas em miniatura, teve uma grande difusão nos anos 60 do século XIX, sobretudo na edição de imagens estereoscópicas com séries de narrativa temática muito diversa, da política à religião, do acontecimento à narrativa fantástica, com especial destaque para as “diableries”[3]. Foi trabalhada de uma forma singular no período moderno por Man Ray (ca. 1926-1945, 1975-1976) e Fernando Lemos (1949-1952)[4], e tomou novo alento com a difusão do pós-modernismo nos anos 70 e 80 do século XX, com o trabalho de artistas como David Levinthal (1972-2008), Laurie Simmons (1976-2002) e Ellen Brooks (1978-1985), sendo actualmente praticada por vários autores, como Mariel Clayton[5].

Nas imagens publicadas sob o título “Naughty little people postcards”, a estratégia ressurge com uma estética visual actualizada e, sobretudo no caso de Lisa Swerling, com uma abordagem pouco convencional.

Seleccionamos alguns bilhetes postais desta edição, que seguidamente comentaremos de forma abreviada.

Jonah Samson – Hope (© Jonah Samson, cortesia do autor e Laurence King Publishing)



A imagem Hope, de Jonah Samson, mostra-nos como a nossa vida é precária e depende em grande medida dos outros. Não do 'outro' que age de acordo com as normas de conduta socialmente aceites, mas dos que as transgridem. De quem, por algum motivo, explicável ou não, tenha o impulso de destruir. Esperança de sobrevivência é o que resta a quem se encontra na posição de depender do imprevisto, do que se passa na cabeça do homem com quem nos cruzamos quotidianamente.

Jonah Samson – Fucking (© Jonah Samson, cortesia do autor e Laurence King Publishing) 


Em Fucking, Samson provoca-nos com a evidência do acto sexual praticado no espaço público. Se esta imagem não fosse construída com miniaturas, estaria algures entre o registo pornográfico e o voyeurismo fotográfico, ultrapassando a fronteira do que é passível de ser publicamente partilhado. Encenada desta forma, a imagem ganha alguma distância do óbvio e aproxima-se da experiência erótica. Se ambas as imagens são miniaturas encenadas no registo ficcional, o seu impacto reside na sua ambivalência entre narrativa ficcional e representação de uma ocorrência real. Se a situamos num ou noutro pólo, isso depende mais do olhar de quem vê do que do representado.

Lisa Swerling – Smoking kills (© Lisa Swerling, cortesia da autora e Laurence King Publishing)


Em Smoking kills, Lisa Swerling usa a relação entre escala real e escala das miniaturas para abordar a morte como resultado do consumo do tabaco. Literalmente, aqui o que mata não é o consumo, mas o acto físico de apagar o cigarro, como se de um castigo de um ser superior (em tamanho) se tratasse. Além disso, a morte do 'outro' revela o voyeurismo do cidadão comum, que constata e regista uma vez mais que a morte lhe passou ao lado.

Vincent Bousserez – Special skating (© Vincent Bousserez, cortesia do autor e Laurence King Publishing)


Em Special skating, Bousserez cria uma sobreposição oscilatória entre a escala da miniatura e a escala real, que integra por oposição, no plano emocional, os conceitos de sonho e dependência, de ilusão e realidade. Extremos que por vezes se tocam nas vicissitudes do enorme esforço de construção de uma carreira profissional.

Estas duas últimas imagens não se limitam ao registo de uma encenação a uma escala reduzida, mas exploram conscientemente categorias semânticas da relação entre a escala real e a da miniatura numa mesma imagem encenada, integrando a natureza desta representação no próprio acto de concepção.




1. Grundberg, Andy (1999) Crisis of Real: Writings on photography since 1974. Denville, New Jersey: Aperture Foundation, Inc., p. 267.
2. Samson, John; Bousserez, Vincent; Swerling, Lisa; The Rainbowmonkey (2012) Naughty little people postcards. [S.l.]: Laurence King Publishing; Naughty Little People Postcards, [http://www.laurenceking.com/en/naughty-little-people-postcards/, acedido em 18.04.2013].
3. Pellerin, Denis (1995) La photographie stéréoscopique sous le second empire. Paris: Bibliothèque nationale de France, pp. 21-22, 61-62, 64, 75, 82-90; Weynants, Thomas (2003-) ‘Diableries, stereoscopic adventures in hell’, in Early Visual Media, [http://www.visual-media.be/, acedido em 28.04.2013]
4. Ray, Man, et al. (1991 [1.ª ed. 1982]) Man Ray Photographs. 2.ª ed. Londres: Thames & Hudson, pp. 164 [Série ‘Mr and Mrs Woodman’ (1927-1945)], 170-171 [La télévision, 1975; Sans titre, ca. 1927]; Janus (org.) (2000) Man Ray. Lisboa: Instituto Português de Museus, p. 296 [Sem título, 1975]; Man Ray Pro [http://www.manray-photo.com/catalog/index.php?cPath=32&largeur=1280&sort=3a&page=3&osCsid=20af93605d44f26c39cea6bc7f854f3a, acedido em 28.04.2013], [‘Lydia and mannequins ‘ (1932), série ‘Mr and Mrs Woodman’ (1947), ‘Tribute to Sade – Woodman’ (s.d.)]; Lemos, Fernando; Molder, Jorge; Azevedo, Fernando (1994) Fernando Lemos: a sombra da luz. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian - Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, pp. s.n.º [‘Cena humana’ e ‘Nu de ensaio’].
5. Grundberg, Andy; Gauss, Kathleen McCarthy (1987) Photography and art: Interactions since 1946. New York: Abbeville Press, pp. 176-177, 208-209, 219, 227; Levinthal, David; Prince, Richard (2009) Bad Barbie. New York: John McWhinnie & GHB Editions [fotografias de 1972-]; Levinthal, David (2000) XXX. Paris: Galerie Xippas; Ellen Brooks [http://ellenbrooks.net/tableaux-1978%E2%80%931985/, acedido em 28.04.2013], série ‘Tableaux 1978-1985’; Simmons, Laurie; Squiers, Carol (2003) Laurie Simmons: In and around the house: The complete early black and white photographs, 1976-1978. Carolina Nitsch Editions; Simmons, Laurie; Howard, Jan (1997) Laurie Simmons: The Music of Regret. Baltimore Museum of Art; Laurie Simmons [http://www.lauriesimmons.net/, acedido em 28.04.2013]; The photography / Mariel Clayton, [http://www.thephotographymarielclayton.com/, acedido em 28.04.2013]

Friday, April 12, 2013

Postcrossing no Fugas



Objeto ligado ao imaginário da viagem, o postal ilustrado foi esta semana tema de uma longa reportagem dedicada ao projeto internacional Postcrossing, publicada na versão eletrónica do suplemento Fugas do jornal Público. Boa leitura!


Tuesday, April 9, 2013

Os Portugueses na primeira Grande Mundial. A reportagem de Arnaldo Garcez, fotógrafo do C.E.P.


Arnaldo Garcez (Serviço Photographico do C.E.P. / Lévy & Fils C.ie Paris) – Os Portuguezes em França. Revista d’uma brigada.



Hoje comemora-se o 95.º aniversário da batalha de La Lys. Um violento confronto de divisões do exército britânico e batalhões portugueses com o exército alemão, que neste dia saiu vitorioso. Desde então, todos os anos se realizam cerimónias memoriais no cemitério militar português de Richebourg, e junto ao monumento de La Couture, onde se reúnem militares e civis para prestar homenagem aos nossos soldados. La Lys foi uma das batalhas travadas entre os aliados e os alemães durante a Ofensiva da Primavera, planeada pelo general Ludendorff, que ficou conhecida pelo nome de código Operação Georgette (ca. 7 a 29 de Abril de 1918). O objectivo alemão era quebrar as linhas defensivas e obrigar os britânicos, posicionados naquela zona da Flandres, a recuar até aos portos do Canal da Mancha e, em última análise, à sua retirada de França e da guerra. Por esta altura a 1.ª Companhia do Contingente Expedicionário Português já tinha retirado da frente, e a 2.ª tinha sido informada que ia retirar, pouco tempo antes do ataque alemão. Os portugueses, fatigados de uma longa luta nas trincheiras e com a moral pouco elevada, resistiram como puderam. Entre mortos, desaparecidos e aprisionados, nesta batalha os portugueses perderam cerca de 300 oficiais e 7000 soldados, alguns dos quais nunca chegaram a ser identificados. Apesar disso, ficaram registados actos de extraordinária bravura, e a acção portuguesa contribuiu para limitar as consequências da ofensiva alemã. Nas batalhas que se seguiram os aliados conseguiram conter o seu avanço em direcção à costa e, no dia 29, os alemães cancelaram a Operação Georgette [1]. 



Arnaldo Garcez (Serviço Photographico do C.E.P. / Lévy & Fils C.ie, Paris) - Os Portuguezes na frente de batalha. Bateria a caminho das linhas.


Do vasto trabalho fotográfico de Arnaldo Garcez Rodrigues como fotógrafo oficial no Serviço Photographico do Contingente Expedicionário Portuguez, desde a preparação das tropas em Portugal até ao final da nossa participação na primeira guerra mundial (Julho de 1916 - ca. 1919) [2], foram impressas três séries de 24 bilhetes postais num total de 72 [3], com legendas em português e em francês, que registam momentos significativos da nossa presença e acções na 1.ª Grande Guerra, constituindo uma narrativa visual, politicamente correcta e certamente supervisionada, dessa acção militar. Os únicos exemplares circulados de que temos notícia datam de finais de Janeiro e de Fevereiro de 1918 [4], o que nos leva a supor estas séries foram editadas a partir de cerca de finais de 1917 ou Janeiro de 1918, e pelo menos até Julho de 1918 [5]. Aparecem com alguma frequência exemplares desta edição que foram usados com fins publicitários pela marca de calçado Portugal, possivelmente a fornecedora de calçado às tropas, com um carimbo vermelho sobreposto, nem sempre criando associações semânticas felizes entre imagem e texto...



Garcez, Arnaldo (Serviço Photographico do C.E.P. / Lévy & Fils C.ie, Paris) - Sector Portuguez. Zona devastada. Le Touret.- Sepultura portugueza, com carimbo do calçado Portugal.


A correspondência dos soldados portugueses que combatiam em França, através de bilhetes postais, foi sobretudo feita usando edições francesas, quer ilustradas com imagens relacionadas com a guerra, quer sem qualquer relação com ela. Se tomarmos como credível a informação da circulação de alguns exemplares da série de postais impressos com fotografias de Garcez em Janeiro e Fevereiro de 1918 [6], o facto leva-nos a supor que não devem ter sido vendidos próximo da frente de batalha, ou que, por qualquer outro motivo, os soldados portugueses quase não tiveram acesso a eles, justificando a sua escassa circulação. Assim, mais do que suporte para a correspondência de guerra, eles terão passado rapidamente para a categoria de memorabilia, constituindo uma memória visual da nossa presença na 1.ª Guerra Mundial.



1. Henriques, Mendo Castro & Leitão, António Rosas (2001) La Lys – 1918 – Os Soldados desconhecidos, Lisboa: Prefácio;
'Battle of La Lys (1918)'. Wikipedia, the free encyclopedia,
'Corpo Expedicionário Português'. Wikipedia, a enciclopédia livre.
‘Portugal na Primeira Guerra Mundial, Wikipedia, a enciclopédia livre,
2. Vicente, António Pedro (2000) Arnaldo Garcez: Um repórter fotográfico na 1ª Grande Guerra. Porto: Centro Português de Fotografia.
3. Três séries de 24 bilhetes postais (segundo informação obtida por Pedro Barros, coleccionador) com os títulos "Os Portuguezes em França", que mostra a presença e as manobras do C.E.P na Flandres, bem como a componente social da nossa acção (quer os contactos militares com as chefias aliadas, quer as nossas acções de evacuação e apoio à população local), "Os Portugueses na Frente de Batalha", que regista de forma positiva e selectiva o quotidiano dos nossos soldados na frente de batalha, e o "Sector Portuguez", que regista os efeitos destrutivos da acção inimiga na área defendida pelos portugueses. Segundo Vicente (2000: 12) a edição conta, no total, com 75 bilhetes postais. Foram impressos em fototipia, pela firma parisiense Lévy Fils & C.ie, herdeira de um estabelecimento familiar que editou vistas fotográficas de Portugal, desde cerca dos anos 60 do séc. XIX, e as comercializou em França e em Portugal.
4. Sousa, Vicente & Jacob, Neto (1985) Portugal no 1.º quartel do Séc. XX, documentado pelo bilhete postal ilustrado da 1.ª Exposição Nacional de Postais Antigos. Bragança: Câmara Municipal de Bragança, pp. 366-367.
5. Bilhetes postais intitulados 'Paris.- 14 de julho de 1918. Desfile dos portuguezes.', da série Os Portuguezes em França.
6. Id, nota 4.