Saturday, May 29, 2010

x Carimbo(s) + 1 Postal em Branco = 1 postal + x e-card(s) / x RubberStamp(s) + 1 Blank Postcard = 1 postcard + x e-card(s)

Imagem Reproduzida numa página Flickr dedicada aos postais de Natal de 2008, no Museu Berardo

A ideia parece ter partido do fotógrafo Fernando Gonçalves, e ter sido já acolhida por duas vezes (em 2008 e em 2009) pelo Museu Colecção Berardo e pela sua livraria, a Bshop. São postais de Natal mas o conceito poderia ser usado em qualquer altura do ano: o artista Pedro Cabrita Reis fez os desenhos, que por sua vez foram transformados em carimbos; na livraria venderam-se os postais em branco e os visitantes adquiriram-nos, ilustrando-os livremente com as figuras imaginadas pelo artista português. Os postais foram ainda digitalizados e colocados on-line, para que, para além do original, os seus autores dispusessem de imediato de uma versão electrónica, que pudesse ser enviada em alguns cliques. A combinação de técnicas (desenho, carimbo, reprodução digital), a disponibilização de um postal em branco, assim como a possibilidade dada ao público de manipular uma obra de arte (os carimbos de Pedro Cabrita Reis) são aspectos que convocam uma certa hibridez e interactividade, bem mais próprios à nossa era de meios electrónicos instantâneos, onde a massa de imagens se multiplica e adensa, do que à era das reproduções analógicas e das ligações morosas.

The idea seems to have come from the photograph Fernando Gonçalves, and to have been received twice (in 2008 and in 2009) by the Museum Collection Berardo and by the bookshop, Bshop. They're Christmas cards but the concept seems to be possible to use in any occasion: the artist Pedro Cabrita Reis made the drawings and these drawings became rubber stamps; in the bookshop they sold blank postcards and visitors bought them and illustrated them with the pictures imagined by the Portuguese artist. The postcards were scanned and published on-line in order to allow their authors to send an electronic version in a few seconds. The mix of techniques (drawings, stamps, digital reproduction), the proposition of a blank postcard, as well as the possibility offered to the public of manipulating an artwork (the stamps of Pedro Cabrita Reis) convoke a certain hybridism and interactivity, which are more associated with our era of electronic media, where the mass of images is more and more dense, than with the era of analogical reproductions and slow connections.

Sunday, May 23, 2010

O riso e o risível: forma e subjectividade


No mundo dos bilhetes postais, deparamo-nos, amiúde, com exemplares presumivelmente cómicos. Apresentam, quase todos, cenas e personagens que se ajustam ao protótipo do risível avançado por Henri Bergson (1983: 9 e 11): “desajeitados” e “grandes desviados”. Confesso que raramente me fazem rir. Já não digo às gargalhadas, contentar-me-ia com algumas cócegas no espírito.



Este postal ilustrado é capa de um livro clássico (Kyrou, 1966). E, para além de fazer cócegas no espírito, fornece um bom pretexto para dois apontamentos atravessados:

1 – O risível pode provir mais da forma do que do conteúdo. Parece-me ser o caso do “humor mais criativo”;

2 – O risível pode ocorrer, não porque observamos, desprendidamente, um “desajeitado” (Charlot) ou um “grande desviado” (Don Quixote), mas, outrossim, porque aquilo que nos é dado observar nos deixa , a nós, sem jeito, nos desvia para outros jogos (a que a razão é, porventura, alérgica).

Referências:

BERGSON, Henri (1983), O Riso. Ensaio sobre a significação do cómico, Rio de Janeiro, Zahar Eds.

KYROU, Ado (1966), L’Age d’Or de la Carte Postale, Paris, Balland.


Monday, May 3, 2010

Propaganda e humor mortífero

Na introdução ao livro A Obra de François Rabelais e a Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, M. Bakhtin esboça uma breve história do riso grotesco. Século após século, da Idade Média até ao modernismo, passando pelo romantismo, o riso tende a perder universalidade, ambivalência, envolvimento, esperança e ímpeto regenerador. Acentua-se, em contrapartida, a vertente satírica, retórica, sentenciosa e sectária. O caldeirão turbulento do tempo de Rabelais cede lugar ao chicote e à vergastada. Outrora aglutinador e contagiante, o riso passa a dividir e a excluir, castiga o indesejável e exorciza a alteridade. Descobre-se arrepiante e sombrio. “O mundo do grotesco romântico é mais ou menos terrível e estranho ao homem. Tudo o que é corrente, banal, habitual, reconhecido por todos, torna-se, num ápice, insensato, duvidoso, estranho e hostil ao homem. O seu mundo transforma-se subitamente num mundo exterior. E o que é familiar e tranquilizador revela, de repente, a sua face terrível. (...) Enquanto que o grotesco da Idade Média e do Renascimento, aparentado à cultura cómica popular, só conhece o terrível nos espantalhos cómicos, isto é no terrível vencido pelo riso” (Bakhtin: 48). As guerras são pantominas delirantes e a morte, sempre omnipresente, é uma morte prenhe, que ri e dança à semelhança das terracotas e dos frescos medievais. Esta morte transitória e ambivalente, a rebentar de vida, tende a ser substituída por uma morte estéril, espécie de portal para o abismo e o vazio, ou seja, por “um grotesco mutilado, efígie do demónio da fecundidade com o falo cortado e o ventre encolhido” (Bakhtin: 62).

Esta referência a M. Bakhtin vem a propósito de alguns postais ilustrados de propaganda circulados durante a primeira República. A História do humor não é porventura tão líquida quanto o sugere a proposta de M. Bakhtin, não deixa, porém, de ser uma tentação procurar aplicá-la a três postais que mostram a República, zelosa e higienista, a escorraçar os indesejáveis à chicotada e à vassourada. Universalidade ou parcialidade? Ambivalência ou univocidade? Comunhão ou alienação? Homeopatia ou exorcismo da diferença? Regeneração ou exorcismo? Esperança ou melancolia? Abertura ou abismo? Dobra festiva ou sombria? Riso pantagruélico ou satírico? Folia ou angústia? Humor carnavalesco ou “humor mortífero”, para retomar a expressão de Jean Paul Richter?...

Estes postais contêm caricaturas. As caricaturas, tal como as caretas e as paródias, derivam, segundo M. Bakhtin, da máscara, que “exprime a alegria das alternâncias e das reencarnações, a alegre relatividade, a alegre negação da identidade e do sentido único, a negação da coincidência estúpida consigo mesmo; a máscara é a expressão das transferências, das metamorfoses, da violação das fronteiras naturais, da ridicularização, dos sobrenomes; a máscara encarna o princípio do jogo da vida” (49). Até que ponto a máscara, tal como a entende M. Bakhtin, se ajusta a estas caricaturas?

Referências:

Bakhtine, Mikhaïl (1970), L’Oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance, Paris, Gallimard.

Richter, Jean Paul (1804), Cours préparatoire d’esthétique, Lausanne, l ‘Âge d’ Homme, 1979.

Ventura, António (2010), Os Postais da Primeira República, Lisboa, Tinta da China e Centenário da República 1910-2010.