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Sunday, December 20, 2009

Dos postais de Natal às sms de Natal - From Christmas postcards to Christmas sms

Postais de Natal criados este ano por uma designer portuguesa*
Christmas Postcards created this year by a portuguese designer*


Depois de várias pesquisas nos motores de busca da Web, reforça-se de novo a ideia já aqui apresentada de que o cartão de Natal é ainda anterior ao primeiro postal, circulado na Áustria em 1869. Mas o postal, formato de correspondência enviado normalmente sem envelope, e que permitia enviar por um módico custo os votos próprios de uma quadra festiva a amigos e familiares distantes, associou-se desde logo à comemoração desta quadra e o cartão de Natal rapidamente tomou a forma de um postal. Hoje, o mais habitual é mesmo escolher uma sms mais ou menos estereotipada, formal ou humorística , e enviá-la em catadupa para toda a lista telefónica. Ou então, para quem prefere as ilustrações ao texto, há ainda a panóplia de e-cards animados , de mms natalícios, que declinam até à exaustão, como os postais o fizeram outrora, a iconografia e os símbolos da quadra festiva. De modo que o Natal não é hoje só uma época em que a iluminação pública das cidades, com todas as suas cores, formas e brilhos, está permentemente acesa, mas também uma altura em que os nossos écrãs (do telemóvel, do computador) dificilmente se apagam. Aos cartões e postais tradicionais oferecidos e enviados nesta época, resta-lhes a materialidade e a permanência como souvenir, que os faz mais próximos da prenda. E ainda, claro, o formato simples que os faz ser uma tela privilegiada para experimentar a criatividade de jovens designers e ilustradores... Um bom exemplo disto são os postais de Natal concebidos este ano por uma jovem designer gráfica portuguesa*, aqui reproduzidos.
After some researches in the web search engines, we reinforce the idea, which was already here presented, that the Christmas card appeared even before the first postcard, circulated in Ostrich in 1869. But the postcard, which is a correspondence format normally sent without envelope allowing to send good wishes during the festive season for a small price, has been soon associated with the celebration of the season and the Christmas card has soon become a postcard. Today, the more common is to choose a more or less stereotyped, formal or humoristic sms, and to send it massively to all the contacts list. Or, for those who prefers illustrations rather than texts, there’s also the panoply of animated e-cards, Christmas mms’s, which decline exhaustively, as postcards did it once, the festive season iconography and symbols. This way, Christmas today is not only a time in which the public lights of the city, with all their colors and brightness, are permanently turned-on but also a time in which our screens (cell phone, computer…) are rarely switched off. Concerning cards and traditional postcards offered and sent in this season, there’s always their materiality and their permanence as a souvenir that make them closer to gifts. And postcards are also, of course, because of their simple format, a privileged canvas for experimenting the creativity of young designers and illustrators. A good example of this is the Christmas cards conceived this year by a young Portuguese graphic designer*, here exposed.
*A identidade e os contactos da designer gráfica foram removidos deste post, a pedido da mesma. 
*The identity and contact information from the graphic designer were removed from this post, at her own request. 

Monday, November 2, 2009

Dos postais às artes plásticas, ao design gráfico, à BD.../From Postcards to Arts, Comics, Graphic design...

Esq.: Postal editado/ilustrado por FlyingFish (Inglewood, California, EUA); Dir.: Postal editado pelo Centro Georges Pompidou, reproduzindo "The melody haunts my reverie" de Roy Lichtenstein / Left: Postcard published/illustrated by Flying Fish (Inglewood, California, EUA); Right: Postcard published by Centre Georges Pompidou, reproducing "The melody haunts my reverie" by Roy Lichtenstein

 A arte imita a cultura popular e a cultura popular imita a arte.  Se as obras de Roy Lichtenstein refazem os traços da "literatura em estampas" (foi assim que Rodolphe Töpffer, considerado criador da BD, definiu as histórias aos quadradinhos)  é agora a "correspondência em estampas" que recria as suas obras. Quase se poderia jogar ao "descubra as diferenças" entre a série de ilustrações do designer gráfico dos postais "à la Lichtenstein" (das quais o postal à esquerda é exemplar) e as criações do célebre autor da popart. Os postais aqui reproduzidos foram ambos adquiridos na Livraria Flammarion do Centre Georges Pompidou (Paris, França) e enquanto que o primeiro é uma criação para postal ilustrado, o outro usa simplesmente o postal como suporte de reprodução de uma obra de arte do pintor nova-iorquino. Deambulando "pelas convulsões da experiência moderna" (Moisés de Lemos Martins), as artes plásticas do século passado e do século XXI trazem para as suas telas as imagens da cultura de massas, ao recriar as práticas do design, da publicidade ou, no caso de Lichtenstein, da banda desenhada. Por outro lado, as intervenções do design e da publicidade contemporâneas apropriam-se das imagens desta arte informal e descomplexada, transformam-nas, inspiram-se nelas. Os postais, objectos da cultura de massas que participam do imaginário popular e suportes de reprodução e divulgação de obras de arte contemporâneas, são exemplares deste vaivém, restituindo uma história de imagens, onde as distinções entre artes plásticas e artes menores se tornaram tão difíceis ao nível visual e estético quanto vãs do ponto de vista epistemológico.

Arts imitate popular culture and popular culture imitates arts. Roy Lichtenstein's artworks remade the traces of the "engraved literature" (that's how Rodolphe Töpffer, who is considered to be the creator of comic strip, defined the art of comics); nowadays, the "engraved correspondence" is recreating his artworks. We could almost play the “ Find the differences” between the series of illustrations by the graphic designer of postcards “à la Lichtenstein” (the postcard on the left is a good example) and the creations of the famous popart author. The postcards here reproduced were both bought in the Flammarion Bookshop in Centre Georges Pompidou (Paris, France); whereas the first one is a creation for picture postcards, the other one uses postcards as a simple reproduction device for artworks by the New-Yorker painter.  Wandering around the “convulsions of the modern experience” (Moisés de Lemos Martins), the fine arts of XXth and XXIth centuries bring the mass culture images to their canvas, recreating design advertising and comics practices.  On the other hand, the contemporaneous advertising and design interventions appropriate pictures from these informal and relaxed artworks, they transform them and they use them as source of inspiration. Postcards, which are mass culture objects participating in the popular ‘imaginarium’ as well as reproduction and divulgation tools for contemporaneous artworks, expose this coming and going: they restitute an history of images, where the distinctions between fine arts and minor arts have become as difficult (visually and aesthetically speaking) as empty from the epistemological point of view. 

Monday, May 18, 2009

O postal à mesa de mistura

Recto do postal de arte nº 13 da série 41 as Awami criada por Max Guedj e editada pela Galerie L'Oeil du Huit em 2002 (adquirido em Paris, em Janeiro de 2009) 
Connect... Draw... Remix, Matthew Falla, 2007

São duas criações aparentemente distantes mas que dizem sobre os postais algo semelhante... Contemporâneo das pioneiras fotografias, que deram a ver a primeira imagem do encontro entre o homem e a máquina (Walter Benjamin), o postal é uma outra figura desse encontro: carta pré-feita, o postal começa com a mistura das nossas velhas palavras manuscritas a uma produção maciça e impressa. Ora, os postais de arte inventados pelo francês Max Guedj põem precisamente em cena um teatro tipográfico no recto do postal, que desenha formas e completa mensagens, a partir do cruzamento da tipografia com o manuscrito. Já o designer londrino Matthew Falla, cuja obra se centra na combinação de suportes tradicionais (posters, souvenirs, postais) com as possibilidades interactivas da tecnologia e do multimedia, complica o jogo.   Connect... Draw...Remix é uma série de cartões pintados pelos seus utilizadores e  lidos por um leitor com cabo USB; no mesmo movimento em que vão traçando riscos com um lápis no postal, os utilizadores vão misturando música (um vídeo exibindo o processo está disponível no site oficial de M. Falla). Os postais de Guedj são tradicionais e podem ser enviados com as mensagens curtas e redundantes que sempre inscrevemos no verso dos cartões; os postais de Mathew Falla, referidos como postais pelo designer, e incluídos na obra Cartes Postales de FL@33, já quase não nos parecem postais... Mas ambos, enviados ou não, nos lembram que o postal, combinando uma reprodução em massa com uma mensagem manuscrita e singular, pressupõe na sua própria natureza um princípio de apropriação, de citação, de montagem, de mistura e de hibridação.